A pergunta veio num arfar irregular, ocasionada pelo estado quase inconsciente em que a matriarca dos Grená se encontrava depois que o Príncipe levara seus corpos ao limite:
—
Ficou sabendo sobre a Ducentésima Vigésima Nona?
Ele
sabia, sim, e não conseguia parar de sorrir desde que recebera a notícia. Era
esse o motivo pelo qual lady Grená – Medeia, como agora permitia que Júlio lhe
chamasse – chegava mais exausta do que o normal ao término da visita daquela
noite. Bom, o motivo mais importante, pelo menos. Júlio também havia caprichado
no uso dos lábios e dedos porque dentro em breve iria pedir um favor.
—
Não dou muita atenção a notícias do Exército — o Príncipe mentiu, afetando
desinteresse enquanto vestia suas calças. — Digo, está falando do Exército, né?
—
Meu canarinho bobo — Medeia riu fracamente, o rosto semienterrado nas almofadas
que estivera mordendo para abafar os gritos pela última meia-hora. O tremor do
riso fez ondular levemente o corpo desnudado e incomumente torneado da nobre
senhora. Seu cabelo preto e longo, ligeiramente arroxeado onde refletia a
meia-luz dos castiçais, caía em ondulações cacheadas pelas costas suadas e
também mudou de posição quando ela riu. — Não, estou falando da última
expedição da Academia. Sabe o que é a Academia Imperial, não sabe? Ou será que
vai precisar de outra aula...?
Júlio
sorriu onde a escuridão parcial do quarto melhor escondia seu rosto. O costume
de receber “aulas” de lady Grená era resultado de uma das muitas estratégias
que ele empregara para fazer com que ela se apaixonasse, e de longe era a que
melhor funcionava. O Príncipe não fazia ideia de que se fazer de burro e
desinteressado era tão eficaz no que dizia respeito a seduzir mulheres mais
velhas. Ele terminou de abotoar as calças e sentou-se na beira da cama,
beliscando a sola dos pés de Medeia antes de começar a vestir a camisa. O
algodão desceu por suas costas queimando em atrito com as feridas mais
recentes: mordidas e arranhões feitos pela nobre senhora no auge de seu êxtase.
—
A Academia é onde ensinam bruxaria — Júlio disse, a voz densa de confiança
ignorante. — Letras, leitura e outras coisas demoníacas. Tô errado?
Medeia
Grená ergueu o rosto das almofadas, virando-o por cima do ombro para encarar
bem o jovem amante antes de cair na gargalhada.
—
Como meu canarinho poderia estar errado? — Perguntou, maravilhada do mesmo modo
que um cirurgião ficaria ao contemplar uma deformidade física incomum. — Sim,
sim. Está certo — ela esticou o pé beliscado até o colo de Júlio e fez os dedos
dançarem em sua coxa. — Pois bem, os bruxos da Academia mandam pessoas para...
Fazerem coisas de bruxo. Pelo mundo, sabe? Em viagens longas.
—
Parece perda de tempo.
—
E é — Medeia concordou, sua voz rouca expressando aprovação. — Enfim, uma
dessas viagens foi dada como perdida um tempo atrás. O navio enviado pela
Academia naufragou, e toda a tripulação foi dada como morta. Hoje, chegou a
notícia que uma pessoa sobreviveu.
—
É por isso que a rua está nesse escarcéu todo?
O
Príncipe não só sabia que sim, era exatamente por isso que pregoeiros estavam
fazendo jornada dupla naquela noite, como também sabia que ao tenente Brás de
Assis era reservado o mérito da sobrevivência e também o de ter resolvido,
sozinho, o problema das águas despaginadas que cercavam Ibéria. A notícia chegara
por Gaspar pouco antes do horário da visita noturna a lady Grená, de modo que
Júlio estava praticamente explodindo de ansiedade para terminar logo seus
deveres como amante. O heroísmo de Brás abria toda uma gama de possibilidades
para os negócios do Príncipe, isso para não falar na esperança de sobreviver
aos tartarianos, e havia muito a ser feito para aproveitar essa chance.
—
Sim, meu canarinho — Medeia tornou a apoiar o rosto nas almofadas, exausta
demais para manter o pescoço levantado naquela posição. — Ah, pelo amor, você
acabou comigo. Hoje, mais do que nunca, não posso deixar que saia daqui sem
fazer um pedido. Qualquer coisa, meu canarinho.
Uma
vez Júlio fora ensinado que romance era conquistado à base de jogos – dinâmicas
de ganha e perda capazes de distrair uma pessoa de suas prioridades na vida. Um
jovem casal pode brincar de namorar escondido, por exemplo, e jogar junto
contra o mundo; mas eram os jogos em que o casal competia entre si que
realmente faziam aflorar os sentimentos mais profundos. O jogo que o Príncipe
jogava contra lady Grená consistia em rejeitar as ofertas que ela fazia a ele,
ou seja, rejeitar pagamentos pelos serviços prestados. Apesar de ter acreditado
na fachada estúpida de Júlio Saturnino, Medeia não era nada ingênua e sabia que
um rapaz tão jovem precisava de incentivos para continuar satisfazendo uma
mulher mais velha. Ela insistia, oferecia presentes, ameaçava nunca mais
chamá-lo, e tudo que Júlio fazia era recusar. Seguindo as regras do jogo, era
como se ele estivesse vencendo-a. A verdade, porém, era que a verdadeira
vitória viria naquela noite.
—
Qualquer coisa? — O Príncipe perguntou, suavemente.
A
implicação da pergunta foi mais que suficiente para despertar lady Grená de seu
estupor. Ela virou a barriga para cima e sentou-se espichada ao lado do amante,
os olhos quase arregalados de interesse. Desarrumados e soltos, seus cabelos
emolduravam o rosto graciosamente envelhecido como uma juba negra.
—
Meu canarinho decidiu aceitar um presente meu?
Júlio
colocou todo seu esforço na mais convincente representação de embaraço que já
havia feito.
—
É mais um favor.
—
Qualquer coisa — Medeia repetiu, o sorriso mais parecido com um arreganhar de
dentes. Foi só quando a mão dela fechou-se no ombro dele que Júlio teve noção
do quanto ela o queria para si, o quanto ela queria agradá-lo, o quanto ela
acreditava que um presente serviria de gaiola para o canarinho. — Precisa de
dinheiro? Leonardo está te tratando mal? É aquele filho dele, não é? Diga, e eu
prometo...
—
Não é nada assim — Júlio tratou de explicar. — Lorde Leonardo é o melhor pai
que eu poderia querer, e Lancelot é um irmão sábio que admiro muito. Não, é
que... — Ele pareceu hesitar, olhando para longe dela. — É para um amigo.
William Marino.
Algo
na postura de Medeia alterou-se. Quando o Príncipe voltou a olhar na direção
dela, percebeu-a rígida e com um brilho ameaçador no olhar.
—
“Amigo”? — Ela perguntou, a inflexão na palavra denunciando uma acusação.
Júlio
teve vontade de rir, mas lembrou-se de seu papel a tempo e conseguiu parecer
adequadamente afrontado com a insinuação. Mesmo deficiente, a representação foi
boa – lady Grená amoleceu e o brilho em seus olhos abrandou-se. Ela lançou o
braço livre em volta dos ombros de Júlio, como que se desculpando por ter
pensado uma coisa dessas, e meio beijou, meio lambeu, sua bochecha.
—
Você entende que é estranho — Medeia defendeu-se. — Estamos nos encontrando há uma
semana, e você recusou até minha proposta de lhe casar com minha neta mais
velha. Pedir ajuda para um amigo, veja bem... — Ao ver o semblante de seu
canarinho endurecer, ela decidiu mudar de assunto: — Quem é esse William? Não
venho acompanhando a sucessão dos Marino faz anos.
—
É o filho mais jovem de Anselmo — o Príncipe explicou, satisfeito em registrar
reconhecimento no rosto de lady Grená ao ouvir o primeiro nome do atual
patriarca dos Marino. — Foi deserdado ao escolher o amor de minha irmã no lugar
da honra de sua Família.
Medeia
fez uma careta, sem dúvida imaginando um de seus descendentes fazendo uma
escolha parecida, mas meio segundo depois sorriu compreensivamente para seu
amante.
—
Que romântico — ela comentou, nem de longe tão boa em mentir quanto o Príncipe.
—
Também achou? — Júlio fingiu não perceber, devolvendo o sorriso com entusiasmo.
— Fui eu quem o apanhou na caçada, quando ele tentou raptar Luciana, mas me
compadeci do sujeito. Nos tornamos bons amigos, e agora penso que ele merece
uma segunda chance na vida.
—
Ora — lady Grená juntou as sobrancelhas —, mas se ele foi deserdado só existe
uma forma de... — O rosto dela iluminou-se em súbita compreensão. — É esse o
seu pedido, meu canarinho?
—
Se não for pedir muito — Júlio fez, as bochechas queimando de vontade de
sorrir.
—
Ah, meu canarinho. Perto do que lhe devo, isso não é nada.
O
acordo foi selado com um beijo, e o beijo levou ao que normalmente sucede
carícias trocadas entre uma mulher nua e um rapaz saudável. Deixando Medeia
dormindo como um bebê em seus lençóis umedecidos, Júlio dirigiu-se até onde
tinha ordenado que Tomás lhe esperasse. A saída oeste da Mansão Saturnino
estava deserta, salvo pelo mercenário que montava guarda na guarita empoleirada
no muro, e o camareiro esperava pelo Príncipe montado num cavalo enquanto
segurava outro pelas rédeas.
—
E aí, Suspiro? — Júlio cumprimentou, montando o animal com agilidade. — Vamos
dar um passeio? — Sinalizou para que o guarda abrisse uma fresta no portão, e
só então se dignou a falar com Tomás. — Espero não ter lhe acordado. Isso vai
ser rápido, prometo.
—
Estou à disposição — o camareiro respondeu, sinceridade mantendo sua voz firme.
— Para onde vamos? Gaspar só me disse para preparar os cavalos.
—
Distrito do Porto — Júlio avançou pela abertura, passando pelos guardas
postados do lado de fora do portão com um aceno militar. — Preciso despachar
uma ordem urgente, e preciso fazê-lo sem atrair atenção. De todos os meus
associados, você é o que melhor serve para a situação.
—
É uma honra — Tomás parecia genuinamente satisfeito. Eles cavalgaram a meio
galope pelas ruas enevoadas, faíscas voando devido ao atrito das ferraduras com
pavimento. — Para onde no Distrito do Porto?
Júlio
ponderou se deveria ou não ser tão leniente com Tomás. O camareiro parecia um
novo homem, isso era um fato, e todas as suas atitudes até então tinham sido
corretas – mas o Príncipe sabia que suspender as hostilidades com ele poderia
ser perigoso. Tomás era um tipo diferente de mentiroso, sem qualquer senso de
exagero, e suas muitas camadas de inverdade poderiam se espalhar pelos planos
de Júlio como uma praga se o camareiro não fosse delimitado ao seu lugar como
subalterno.
O
perigo de tratar mal um subalterno, porém, trazia em si um risco ainda maior.
—
Cais Contracorrente — Júlio revelou, por fim.
—
Então me siga — Tomás pediu, guinando sua montaria repentinamente para dentro
de uma viela.
Júlio,
convencendo a si próprio de que o camareiro havia feito uma sugestão e não
ordenado, seguiu-o por um emaranhado de caminhos estranhos. O Príncipe podia
saber se orientar como ninguém nas ruas de distritos pobres, mas no da Coroa
ele vinha confinando-se às ruas principais por medo de ser reconhecido vagando
por becos sombrios – se Tomás o estava levando naquela direção para provar sua
utilidade ou se o gesto havia sido apenas oportuno, o fato é que ambos chegaram
ao Cais Contracorrente em menos de vinte minutos e sem que ninguém os visse.
—
Não faça isso de novo — Júlio ordenou, assim que desmontaram. — Da próxima vez,
avise o que vai fazer e me pergunte se pode.
—
Perdão — Tomás pediu. — Farei assim, prometo.
A
ausência de uma justificativa pelo erro era tanto bem-vinda quanto preocupante.
O camareiro ainda não tinha sido quebrado por completo, Júlio percebeu. Sentiu
um arrepio nas costas ao chegar nessa conclusão no meio de um dos pontos mais
remotos da cidade, sem ninguém para ver caso Tomás decidisse esfaquear seu patrão
e tão perto do mar que livrar-se do corpo não seria um problema.
O
Cais Contracorrente havia sido comprado pelo Príncipe logo no início de sua
carreira como contrabandista. Ele o fizera sem dinheiro para pagar, de forma
muito parecida com como emprestara dinheiro com os tartarianos, e usara Edmundo
como intermediário porque, à época, ninguém em sã consciência faria negócio com
um menino magrelo de doze anos. O lugar não tinha passado por renovações
drásticas, mesmo durante a época de maior expansão financeira das operações do
Príncipe, justamente para evitar atrair atenção. A verdadeira mudança
operara-se ao redor do Contracorrente: um bordel, duas tavernas e três
hospedarias haviam sido inauguradas nos últimos tempos para atender às
necessidades dos endinheirados marinheiros servindo sob o estandarte comercial
do Príncipe. Levemente abafado pela ventania advinda do mar, o murmúrio de
música entoada por vozes bêbadas vinha de uma das tabernas. O som reconfortou
Júlio. Se ele tivesse tempo para gritar, pelo menos um de seus empregados teria
tempo de testemunhar Tomás assassinando o patrão. Com sorte, enforcariam o
camareiro antes que seu corpo esfriasse.
O
Príncipe avançou, forçando-se a aparentar calma, para o cais em si. Conseguia
reconhecer um dos dois navios aportados: o Gralha, segundo a integrar a frota
marítima que as águas despaginadas na rota iberiana haviam dizimado. Precisou
de um momento para registrar que ainda tinha três navios, portando um estava
faltando, e pouco tempo depois percebeu que o segundo aportado era o Fúria do
Imperador.
Onde
estava o Peixe-Espada?
—
Aquela moça é conhecida? — Tomás apontou antes que a mente de Júlio se
desfizesse em preocupações. — Acho que ela está te chamando.
Um
aceno vinha da janela mais alta do bordel fechado e completamente desprovido de
luz interior. O Príncipe se aproximou do prédio para reconhecer a mulher, mas
ela voltou para dentro assim que percebeu que tinha captado a atenção dos dois
homens no cais deserto e, depois de um longo momento, reapareceu na porta do
estabelecimento. Foi então que, dando uma boa olhada na pele escura lustrosa, nos
grandes olhos amendoados e na peruca branca emoldurando um rosto de traços
mestiços, Júlio a reconheceu.
—
Belinda — cumprimentou, retribuindo o sorriso com que a jovem prostituta lhe
recebeu. O cheiro perfumado das loções hidratantes que cobrindo o corpo magro e
baixo dela chegou antecipadamente nas narinas dele, e ficou ainda mais forte no
abraço apertado. — Este é Tomás, o novo membro da minha sociedade. Acho que não
tive a oportunidade de apresentá-lo.
—
Num teve, não — Belinda os convidou para dentro ao mesmo tempo em que
gesticulou para que fizessem silêncio. Os três ficaram no corredor principal do
bordel, em frente à passagem para a suntuosa sala de estar decorada com
almofadas ao redor de narguilés. — Prazê em conhecê, sinhô Tomás.
O
camareiro aceitou a mão dela com uma mesura, o que Júlio aprovou. Apesar da
profissão, e do fato de que estava na presença de dois homens, um dele
estranho, usando pouco mais que uma camisola fina e meias-calças, o Príncipe
insistia para que todos a tratassem com o respeito devido à mulher de um amigo
– o que, em todos os níveis exceto oficiais, era exatamente o que Belinda era.
Jorge Salino havia se apaixonado por ela mais ou menos no mesmo dia em que o
bordel de Madame Katrine abriu suas portas, e o casamento já teria acontecido
se Belinda não estivesse presa ao trabalho para pagar a dívida de seu pai, que
costumava ser viciado em apostas até ser morto depois de uma onda de azar.
Madame Katrine recusou-se a aceitar o valor integral da dívida e, sendo
protegida pelos Lobos do Mar, obrigou o Príncipe a tomar parte num acordo
mensal: pagar pelos dias de trabalho de Belinda, com juros, por cinco anos. A
menina, que então se tornou prostituta não-praticante, passou a viver no bordel
sem precisar trabalhar. Seu único cliente, afinal, era Jorge, e o capitão do
Peixe-Espada não ficava em terra por muito tempo.
—
Ele saiu hoje cedo — Belinda informou, lendo preocupação no rosto tenso de
Júlio. — Dis’que o vento tava diferente. Pediu pra eu te avisá, mas eu num sei
como falá contigo agora que tu tá morando com os rico. — Riu de leve,
constrangida. — Chei’que uma hora tu viria aqui.
—
Não precisava esperar acordada — Júlio sorriu, grato. — Desculpe por sumir.
Assim que puder, escolha um garoto de recados de confiança e mande-o para a
Mansão Saturnino. Darei a ele autorização para entrar e sair, então você vai
poder me mandar mensagens quando precisar.
—
Posso cuidar disso — Tomás ofereceu-se.
—
E quem você achou que eu ia mandar cuidar? — O Príncipe encarou-o, ríspido.
Voltando-se para Belinda, tornou a sorrir. — Obrigado, querida. Vá dormir.
As
despedidas foram feitas à meia-voz, com muitos abraços e beijos da parte de
Belinda. Júlio já estava quase do lado de fora quando se lembrou de algo
importante:
—
Algumas das meninas daqui vão trabalhar no desfile?
A
pergunta, súbita e sem contexto, colocou a noiva de Jorge Salino para pensar.
—
Cedo desmais pra sabê. Madame K ficô sabendo do desfile ainda hoje — ela
ponderou mais um pouco, massageando o queixo. — Ach’que sim. Por quê?
—
Avise que coisas ruins vão acontecer lá — o Príncipe pediu, seriedade sombria
em seu semblante.
De
volta aos cavalos, Tomás estava fazendo um péssimo trabalho ao fingir que não
estava curioso a respeito do que tinha acabado de acontecer:
—
Para onde agora?
—
Casa — Júlio fingiu não perceber as muitas perguntas escondidas naquela única.
—
Como me saí? Você pareceu insatisfeito com meu comportamento.
—
Se acostume com isso — o Príncipe sorriu sem humor.
Eles
avançaram pelo mesmo caminho por onde tinham vindo, dessa vez com Júlio na
liderança, e num tempo ainda melhor retornaram para os portões da Mansão
Saturnino. O Príncipe sinalizou para que Tomás entrasse primeiro, e quando o
camareiro obedeceu o portão foi fechado às suas costas com um comando de Júlio.
Ele ordenou que não deixassem Tomás sair pelo resto da noite, esperou pela
continência do guarda confirmando que ele tinha ouvido e disparou pelas ruas
cada vez mais escuras do Distrito da Coroa.
O
Príncipe não precisava de atalhos ou um par extra de mãos para onde estava
indo. Cavalgou em plena velocidade, assustando os guardas em ronda e atraindo
gritos encorajadores de bêbados errantes, e antes que o relógio da Praça
Central badalasse três da manhã ele chegou no limite do Não-Distrito que os
ricos chamavam de favela. Júlio puxou as rédeas de Suspiro, forçando o cavalo a
parar, e aspirou o ar rançoso do lugar onde tinha crescido como se fosse o
perfume mais inebriante do mundo.
Ele
desceu do cavalo e lhe deu uma palmada na traseira para mandá-lo de volta para
a mansão; na favela cavalos não só eram grandes demais para passar pela maior
parte das ruas como também atrairiam atenção indesejada. Encontrando apoio num
muro feiro de madeira de naufrágio, Júlio retirou as botas e as prendeu no
cinto pelo cano. Descalço, escalou o muro e dentro em pouco se viu no único
lugar em que realmente se sentia um príncipe: nos telhados irregulares do
Não-Distrito.
Seu
reino estendia-se até onde a vista alcançava, e foi com uma corrida desabalada
que Júlio desafiou os telhados cobertos de limo e com pregos enferrujados
expostos. Ele saltou por sobre muros cobertos com vidro quebrado, deslizou de
bunda por declives segmentados de cerâmica e fez com que cachorros uivassem e
latissem à sua passagem. O frisson de voltar para casa quase foi intenso o
suficiente para que ele se esquecesse do motivo pelo qual tinha voltado e
simplesmente continuasse correndo até chegar à extremidade oposta da favela, já
fora dos limites da cidade. Quase.
Com
uma manobra perigosa o suficiente torcer os tornozelos de homens menos
habilidosos ou mais pesados, o Príncipe aterrissou num beco ainda mais familiar
que todo o resto. Ficava na parte mais antiga da favela, coisa que se
confirmava pela presença das antigas ruínas das mansões e construções deixadas
para trás pelos despaginados que viviam na região quatrocentos anos atrás. Ali,
que diziam ser território maldito, muito poucos ousavam morar. A própria
iluminação pública não chegava no interior do beco, e era bem no ponto onde as
sombras noturnas ficavam mais profundas que a porta para o esconderijo do
Príncipe ficava. Ele pescou uma chave do bolso e, tateando para encontrar a
fechadura, abriu a passagem secreta.
O
que havia do lado de dentro era mais do que suficiente para lhe garantir o
resto da vida no Distrito dos Grilhões: pedras preciosas, obras de arte
roubadas, drogas despaginadas e itens que, apesar da comercialização legal,
estavam sendo preparados para o transporte fora do alcance ganancioso de
cobradores de impostos. O impacto de todos aqueles caixotes abertos e estantes
abarrotadas de itens ilegais era, obviamente, calculado. Ninguém pensaria em
procurar por uma passagem secreta se todo o tesouro já estivesse exposto daquela
forma.
Havia
um alçapão no canto oposto do armazém, e ele conectava a superfície ao
subterrâneo com uma escada rudimentar de madeira. Se a favela era o reino do
Príncipe, o que havia no subsolo era seu castelo.
Ele
calculava que, quatrocentos anos antes, aquela havia sido a mansão de um
vampiro ou outra criatura da noite – elas eram conhecidas por construírem suas
moradias longe da luz do sol. O salão que ficava debaixo do armazém de
contrabando de Júlio tinha o pé-direito alto, era sustentado por colunas de
mármore esmaltado e era mobiliado com o que só poderia ser decoração da moda
despaginada: divãs feitos de metal em vez de madeira, pinturas que mais
pareciam janelas por onde se podia ver paisagens e pessoas, esculturas feitas
com um tipo estranho de cristal negro e uma lareira que, independentemente do
tipo de madeira que se jogava nela, sempre queimava num fogo azul que gerava
vento frio em vez de fumaça.
Apesar
do tamanho do cômodo, ele era a única parte da propriedade que podia ser
acessada sem riscos – o resto havia sido demolido, ou parcialmente demolido,
durante a guerra. Era um verdadeiro achado que tanto do salão principal tivesse
sido preservado e esquecido, o que facilitou muito dos gastos de Júlio para
transformá-lo num lar; ele só precisara instalar a iluminação de alguns
castiçais e lustres, trazer para a segurança uma enorme cama de plumas que
ficava num dos cômodos condenados e construir as estantes que ficavam no canto
mais afastado do lugar. Foi para esse canto, inclusive, que o Príncipe se
dirigiu primeiro.
Ele
sentiu o corpo inteiro arrepiar-se assim que se aproximou o suficiente para
sentir o cheiro de papel velho e tinta seca. Religiosamente, Júlio passou as
mãos sujas e suadas pelas estantes que cobriam ambas as paredes do pequeno
cômodo. Cuidava para evitar que a imundície em seus dedos manchasse o papel,
mas chegava perto o suficiente para sentir os arrepios aumentando com a
proximidade. Ele se afundou nas lembranças de quando descobrira aquele que era
seu verdadeiro tesouro, e muito tempo se passou até que ele despertasse do
transe e decidisse ir lavar as mãos.
No
caminho para o lavabo, moveu-se com cuidado para não acordar antes da hora a
pessoa para quem aquela residência subterrânea havia sido criada – uma menina,
quase mulher, que dormia na cama com dossel próxima à cozinha improvisada. Depois
de limpar-se, voltou até o canto onde ficavam os manuscritos e procurou, tanto
entre as prateleiras quanto em sua memória, pela seção de histórias de terror. Encontrando-a
entre os contos de fadas e as compilações de fábulas, passou mais algum tempo
tentando descobrir, sem sucesso, quais narrativas estavam contidas em cada maço
de papel. Faziam muitos anos desde que seu antigo professor lhe falara sobre a
organização daqueles livros e, mesmo ao pegar este ou aquele manuscrito para
ver se o reconhecia, tudo o que enxergava era um emaranhado de letras que, além
de não significarem para sua mente analfabeta, não ostentavam quaisquer gravuras
que servissem de identificação.
Júlio
deixou que a sorte decidisse e pegou um maço de papel a esmo. Acomodando-o com
cuidado nas palmas das mãos, ele avançou até a cama onde a menina dormia.
—
Velma — chamou, depositando o manuscrito na cômoda mais próxima e sentando-se
no colchão. Tocou o ombro da menina, sacudindo-a. — Velma, querida. Preciso de
você.
Velma
despertou muito aos poucos. Era nos momentos intermediários entre o sono e a
consciência que ela parecia mais sã – olhos dourados focados, ainda que
ligeiramente confusos, e uma expressão plácida no rosto parcialmente coberto
pelos fios escuros como carvão. Não demorou, porém, até que a loucura se
fizesse expressar no rosto semidesperto dela. Os olhos arregalaram-se ao
reconhecer o Príncipe, e as mãozinhas contorceram-se até que os dedos
parecessem garras. Com a boca entreaberta e enviesada por um esgar, ela riu e
choramingou ao mesmo tempo.
—
Era uma vez um menino sem nome — ela disse, a voz alternando entre oitavas a
cada palavra. — Um menino loiro sem nome. Chamaram ele de Príncipe.
Júlio
se forçou a sorrir de volta, a visão do rosto distorcido dela ainda mais
dolorosa em contraste com a placidez de suas feições enquanto dormia.
—
Te trouxe uma história — ele disse.
Velma
guinchou de felicidade ao mesmo tempo em que gemeu de dor. Em sua excitação
para sentar-se e procurar pelo manuscrito, ela fez com que a corrente ao redor
de seu tornozelo tilintasse contra o chão de pedra polida. Os elos ondularam em
uníssono, beliscando a rocha em estalos metálicos, e o movimento só foi
interrompido ao chegar na argola de aço fixada ao chão. Júlio tratou de desviar
os olhos da corrente; da visão que tinha de si mesmo ao se lembrar que, apesar
de tudo que havia feito por Velma, estava mantendo-a presa como um animal.
Exatamente como um animal, a julgar pelo que ele estava ali para fazer.
Velma
apanhou o manuscrito e o abriu com um som umidificado pela saliva que se
acumulava em sua boca. Balançou-se sentada, a um tempo animada e aterrorizada,
e no momento seguinte caiu na mais completa imobilidade. Estava lendo, perdida
no mundo além daquelas páginas. Pelo que imaginava ser a bilionésima vez desde
que a conhecera, Júlio invejou-a por ser capaz daquilo.
Ele
despediu-se sem que ela realmente o escutasse, absorta como estava, e checou tanto
o estoque de comida quanto o de água antes de sair. Como tudo parecia em ordem,
o Príncipe buscou por força nas estantes com um último toque na madeira, tornou
a subir pela escada e refez o percurso de através dos telhados do Não-Distrito
até voltar para o mundo em que ele não era príncipe de nada.
No
caminho de volta para a Mansão Saturnino, Júlio fez questão de passar pela
Avenida Capitalense. Uma vez que ele já trazia as botas nos pés, nenhum dos
primeiros transeuntes da manhã suspeitou que o menino loiro fosse qualquer
coisa além do nobre voltando de uma noitada com os amigos que ele aparentava
ser. Ninguém notou o modo como os olhos dele dardejavam de uma extremidade à
outra da avenida, como que medindo-a, ou o calor com que eles se fixavam no
Palácio Imperial na ponta ocidental dela. Ninguém poderia imaginar as cenas de
horror que aqueles olhos estavam planejando, ou o fervor quase ensandecido com
que o dono deles se comprometia a elas.

Enfim, Maquiavel estava mesmo certo, as pessoas tendem ao CONFLITO. Você não quis ceder, eu também não e eu estava e ainda estou disposta a me matar como perdão.
ResponderExcluirQuer conversar? Não. Então eu posso morrer, e não é só com o conflito seu. È com outras pessoas, a diferença é que agora não ameaço mais de suicidio.
ResponderExcluirVoltei, não teve terapia hoje. Enfim! As vezes o Matheus Wagner me deixa preocupada, eu vou no nyah mas não comento mais nada to chateada com os ADM to chateada com TODOS os usuarios e comigo. mas o matheus fez uma declaração pra uma criança, não achei a conta dela no SITE. EU SEI LÀ PARECE QUE A CRIANÇA MORREU com a dedicatória dele.
ResponderExcluiroi, eu tava depressiva na cama. aí eu vim ler seu livro no pc. obg por me tirar da cama
ResponderExcluirLi de novo, e sim ele tem a idade do pedro bala NÃO TE PERDOO NÃO TE PERDOO POR FAZER ELE TRANSAR ELE È SÓ UMA CRIANÇA
ResponderExcluirPronto, não perdoo o jorge amado agora ele transou com a dora e só tinha 12 anos
ResponderExcluirolha, vou voltar pra cama, to muito deprimida. não aguentei ler seu livro no pc
ResponderExcluiroi, eu voltei. meio depressiva fiz um estrago na internet. fui parar na página do senhor dos anéis brasil. eu já tava pensando em morrer. acho que os adm nem gostam de mim. tava muito mal. mas teve um adm de nome earendil, ele me contou a história do earendil. e aí teve um dia que eu tava muito mal, aí eu fui pro parapeito da janela olhei pra baixo e pensei se eu poderia pular, era dia de jogo, minh cabeça tava muito perdida. eu acho que quando eu sofro eu deliro. eu queria pular, de verdade, eu fiquei com medo. prefiro tentar suicidio com remédio. aí a luz do poste se ascendeu. e eu lembrei da história do earendil
ResponderExcluirolha não é criticando, mas eu tenho medo de influencer. medo desde aquilo com a ana, mas é um medo absurdo. e eu vejo vídeos e eu leio o matheus e são adultos se retratando com crianças e eu fico assim. eu quero morrer.
ResponderExcluire eu fiz uma história ja fui banida por ela, porque a sinopse não era pra todas as idades, não me liguei nisso mas a história assim: acho que a moderação me quer morta. recebo exclusão permanente, mas NADA de assistencia de suicidio, nada
ResponderExcluire indigena é uma ETNIA e ETNIA envolve CULTURA CRESCIMENTO NO MEIO DA CULTURA. e as pessoas do instagram estão se dizendo PARDAS porque são escuras demais para serem brancas e claras demais para serem negras e eu não sei se os pais são interraciais de forma expressiva
ResponderExcluire aí de repente existe cabelo de branco e cabelo de negro e eu fico QUERENDO MORRER
ResponderExcluirAíi UM DIA a internet VAI DESCOBRIR que chamar a pessoa de DOIDA ou DE MALUCA ou de qualquer coias do tipo não É LEGAL. PORQUE É UM ATAQUE A SANIDADE DA PESSOA. É OFENSIVO. E VIRA CHACOTA. Eu fui em um lugar, a pessoa interpretou em teatro uma pessoa com esquizofrenia, sabe O QUE TODO MUNDO FEZ? RIU. RIU. E O MENINO SAIU NÃO FALOU MAIS NADA. EU NEM SEI SE ERA ATUAÇÂO OU SE ERA VERDADE.
ResponderExcluire minha consciencia fica pesada de novo porque eu to aqui e vc pode virar e me chamar de stalker assédio e eu repito de NOVO EU QUERO MORRER
ResponderExcluirO nyah tem uma regra assim: Não pode nudez e seminudez. E aí tem uma pessoa sem camisa '-'' E PODE. Eu não aguento mais ser a errada da história não aguento mais, me matem. eu já aprendi
ResponderExcluirE a terapia me ensinou que é errado eu viver por causa de outra pessoa. é errado eu querer ficar viva só por causa de outra pessoa. porque são heteromotivos sei lá o nome
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirObrigada por aceitar meu pedido de desculpas, agora só não sei se preciava estar realmente morta, mas eu tentei
ResponderExcluirNo fundo, acho que você não me desculparia nem se eu tivesse morta. A interpretação de que você me perdoaria com a minha morte que sim foi tentada e chamada de chantagem por você vem de mim
ResponderExcluirVocê vai me chamar de MALUCA sei lá desculpa DESCULPA. É interpretação minha só tava tentando achar uma profundidade maior na sua história
ResponderExcluirNão tem nenhum amalion em senhor dos anéis, usei uma fonte ruim
ResponderExcluirQUE RAIVA, tem um LEÃO E UM JULIO AUGUSTO E OS DOIS SÂO MEDICI
ResponderExcluirOlha, sim lá atrás, eu pedi desculpas pra você. Só que você não me perdoava por nada. E eu estava morrendo de medo. Aí eu fui atrás das suas amigas pra conversar, e ver se elas te convenciam a me perdoar. mas eu já tinha oferecido meu sangue como desculpa. Então eu decidi morrer, ainda mais com você falando: Não seria fácil ficar feliz (Então vc ficaria feliz do jeito mais dificil). Você disse que era chantagem.
ResponderExcluirda próxima vez que falarem que vão contar pra mãe do meu ex. conta pra mãe tbm que eu tentei suicidio pq eu me senti culpada por não ser uma namorada que transa e ele só quis voltar se a gente transasse logo depois que voltassemos. (Não ele não fez nenhum crime). SIM A GENTE TERMINOU PORQUE EU NÃO QUIS TRANSAR NO PRIMEIRO ANO DE NAMORO. Eu não estou PEDINDO PRA OS HOMENS FAZEREM O MESMO DO QUE EU. TIPO SUSTENTAR O AMIGO DO CARA QUE GOSTA/NAMORADO OU MORRER POR UM PEDIDO DE DESCULPAS.
ResponderExcluirNa tela tinha o suicídio da naomi misora, e sim. Era a conta com o nome "Angel of Porn" A música que você me passou.
ResponderExcluirMeu pai disse que o Alec e a Ana podem voltar algum dia, mas eu não acredito mais. Nem sei se você vai voltar. Mas eu quero morrer. Eu quis oferecer minha vida como perdão e tentei me matar por tudo.
ResponderExcluirTalvez você se pergunte porque quero contato com gente que me odeia e fala mal de mim, porque é NORMAL as pessoas falarem mal de mim ou me acharem maluca. Enfim, eu já aceito que não sou amada por todos. Eu por exemplo aceito tudo de ruim e volto.
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