Brás de Assis percebeu, em dado momento, precisava mesmo ir trabalhar.
Era
assim que descansava a mente – trabalhando. O hábito surgira em seus primeiros
anos na Academia, consequência do estado caótico de seus pensamentos depois de
horas intermináveis de memorização, leitura e treinamento de combate. O corpo,
Brás percebeu, era indiferente à exaustão espiritual dos estudos. Ele então
passou a usar suas horas livres em escapadas muito pouco comuns para um jovem
aluno da mais prestigiosa instituição do mundo: metia-se a aprendiz de
carpinteiros, sapateiros, estivadores, alquimistas ou seja lá quem precisasse
de um ajudante sem nome. O conhecimento acumulado nos anos dentro da Academia
permitiam que Brás desempenhasse qualquer função, facilitando o aprendizado de
novas habilidades, mas ele se concentrava no aspecto físico da coisa. Corria
para dar recados, firmava tábuas para serem marteladas, mantinha o fogo de uma
forja aceso... Tudo para não deixar que seus pensamentos o consumissem, para
não sentir a confusão de sua mente chegando à superfície.
Com
o passar dos anos, a mente de Brás deixou-se domar e a prática de perder finais
de semana ajudando trabalhadores braçais se tornou um passatempo irregular e
feito para visitar velhos amigos, e não dominar pensamentos arredios. Depois de
finalmente ser elevado ao cargo de bibliotecário, e depois de participar de
todas as expedições de extermínio desde a Ducentésima Décima Sexta, Brás passou
a refugiar-se em meio a ferramentas e atividades cansativas para acalmar outro
tipo de inquietação psicológica: medo.
O
povo comum chamava criaturas despaginadas de demônios por falta de conhecimento,
e os acadêmicos o faziam por conhecê-las bem demais. Não eram muitos os que
sobreviviam ao contato hostil direto com um despaginado, e menos ainda eram
aqueles que saíam da experiência com todos os parafusos no lugar. Brás já havia
lutado contra bruxas fantasmagóricas feitas de névoa e enfrentara tanto seus
dentes afiados quanto os sussurros delas em seus sonhos; ele já fora emboscado
por gigantescos escorpiões do deserto, monstruosidades escuras cujo veneno liquefazia
a carne humana; ele já enfrentara, no topo flamejante de um dirigível em queda
livre, pássaros-trovão cujo tamanho, em plena envergadura, poderia cobrir o
palácio imperial em sombra. Cada experiência, Brás conseguia sentir, o tornava menos
são – mas antes de a loucura firmar-se ele se focava numa atividade banal
qualquer e, ao término dela, as memórias de terror e desespero pareciam
distantes demais para afetarem-no permanentemente.
Era
de se imaginar que um ritual tão antigo para Brás, e que tivesse se provado tão
eficaz, só pudesse ser interrompido pelo imperador de Evitérnia em pessoa. Dom
Artur III era famoso por sua displicência no que tangia a exercícios físicos,
exemplificada pelo tamanho de sua barriga, e também pela atenção que dava à
Academia Imperial; era só por causa dele que a instituição não havia cessado
suas atividades financeiramente dispendiosas fora do território eviternense.
Quando Brás voltou, sozinho, do desastre que foi a Ducentésima Vigésima Nona,
era da opinião do Conselho de Reitores que o imperador deveria ser a primeira
pessoa a quem ele relataria os acontecimentos fatídicos da última expedição. A
audiência com o soberano, que não deveria ter durado mais de quarenta minutos,
estendeu-se por quatro dias.
Dom
Artur III parecia fascinado com a história de como a Ducentésima Vigésima Nona,
a bordo do poderoso Vida Eterna, foi completamente dizimada pelo maior kraken
já catalogado pela Academia. O imperador pediu descrições vívidas do monstro
marinho, que Brás não sabia como fazer porque tudo que vira da criatura foram
seus tentáculos quando ela partiu o navio de guerra em dois. Brás também não
sabia como falar das mortes de seus amigos e colegas, tanto pelos krakens
filhotes que vieram pescar depois de naufragado o navio quanto pelo acidente em
si, sem que sua voz se perdesse em murmúrios baixos e que suas mãos começassem
a tremer incontrolavelmente. Dom Artur III, ao que parecia, não se importava
muito. Deu a Brás um quarto no palácio e fez de sua estadia uma espécie de
festa fora de época. No segundo dia contando sua história, o acadêmico o fez
cercado de metade da corte imperial e num palco, porque apenas assim sua figura
magra e alquebrada poderia ser vista em meio à recém-implementada decoração do
salão de baile.
Ciente
da importância de sair-se bem para a Academia, e empurrando os pensamentos
sombrios para um canto já atulhado de recordações ruins, Brás falou sobre como
o kraken surgia em intervalos regulares para engolir um punhado de pessoas,
vivas ou mortas, que estivessem boiando na superfície. A chegada do monstro era
anunciada pela urgência com que suas crias se escondiam sob as ondas, e foi
numa dessas ocasiões em que Brás conseguiu sobreviver ao ataque esfomeado de um
polvo encouraçado do tamanho de um pônei.
Um
a um, seus camaradas acadêmicos foram levados para as profundezas. Um pequeno
grupo de sobreviventes montou resistência num dos poucos destroços do navio
grande o suficiente para servir de jangada, Brás liderando-os, mas os dias que
passaram defendendo-se dos ataques dos filhotes com pedaços de pau e um único
sabre foram perdidos quando a mãe tomou nota deles. “Como se fôssemos uma
refeição num prato”, Brás descreveu, encerrando o segundo dia de sua história
contra o silêncio horrorizado dos nobres. Na noite daquele mesmo dia, o
imperador o convidou para um passeio pelos jardins do palácio.
Ao
contrário do que Brás esperava, Dom Artur III não queria saber o final da
história antecipadamente. Os olhos verdes do soberano eviternense pareciam
interessados em Brás, no homem e não no oficial, e o passeio foi marcado por
perguntas curiosas. Ele gostava de trabalhar na Academia? Estava satisfeito com
a vida que levava? Sem saber como responder àquilo segundo pedia o protocolo,
Brás decidiu ser sincero. Sim, gostava de ser acadêmico. Não, não tinha do que
reclamar na vida... Tirando, é claro, a constante ameaça de morte. Não, não
tinha parentes vivos. Sim, fora acolhido para a Academia como órfão.
Falar
sobre o seus primeiros anos na Academia era tão desagradável quanto falar do
kraken porque, a bem da verdade, ambos os assuntos traziam memórias igualmente
dolorosas. Os homens em uniformes azuis-celestes vieram buscá-lo dois dias
depois que a peste levara sua mãe para o túmulo, e muito do que se lembrava dos
primeiros dias no alojamento de órfãos era marcado pelo luto recente. O
imperador, fosse por perceber que o assunto não era dos preferíveis ou por ter
algo melhor para fazer numa noite de festa e comemoração, dispensou Brás depois
de uma curta volta pelos jardins.
O
dia seguinte trouxe um salão de festas com o dobro de nobres e um palco
duplamente mais alto. Brás lembrou-se de cada técnica narrativa que aprendera
na Academia, de cada pequeno detalhe em histórias de terror que havia lido,
para pintar a imagem mental do interior do estômago do kraken, onde fora parar
depois de a criatura engolir sua jangada numa bocada só. Uma condessa,
arquejando alto, desmaiou diante da descrição de um amigo de Brás, Vicente,
sendo dissolvido pelos fluídos intestinais do monstro; a cena conseguiu um
efeito parecido em quase todos, à exceção do próprio imperador, que observava
Brás com olhos fascinados. O acadêmico, enfim, contou como usou o sabre para
procurar, no escuro úmido e fedorento das cavernas que eram o interior do
kraken, por uma saída. Quase sem ar para respirar e sem forças para cortar
caminho pelas entranhas do monstro, Brás acabou encontrando o coração da
criatura. Ciente de que estava para morrer e com sede de vingança, ele cravou o
sabre no órgão pulsante.
Houve
sonoros protestos quando Brás declarou que aquilo era tudo que contaria naquele
dia, mas o imperador aprovou a escolha – achava divertida a empolgação
incontida de seus subalternos. Na noite subsequente, Brás recebeu visitas de
muitos nobres com presentes e insinuações de promessas em troca de uma dica do
que aconteceria a seguir. Ele recusou os presentes condicionados dando seu
melhor para não ofender ninguém e, até tarde da noite, criou em sua mente um
roteiro para que contasse a história da melhor forma possível. Tinha criado
expectativas e queria atendê-las.
No
quarto e último dia, nobres de fora da capital deram o ar de sua graça. O palco
de Brás foi movido para os jardins, onde mesas de banquete foram posicionadas
em oposição a ele, e lamparinas coloridas foram acomodadas em meio aos galhos
das árvores circundantes. A única coisa mais surpreendente que a quantidade de
pessoas reunidas para ouvir a história de Brás era o silêncio em que elas se
colocaram assim que ele começou a falar; até o vento aquietou-se, curioso para
ver como a história acabava.
O
acadêmico falou sobre uma característica até então desconhecida sobre a
natureza dos krakens – eram capazes de atitudes completamente impensáveis para
sobreviver. Quando o sabre de Brás fez seu coração sangrar, todo o polvo
gigante estremeceu, e um som terrível encheu o interior de suas entranhas: o de
carne rasgando. Sem entender e, francamente, sem se importar com o que estava
acontecendo, Brás tornou a cravar sua lâmina no coração colossal da criatura.
Ele repetiu o gesto um sem-número de vezes, ignorando o som que crescia às suas
costas. O ruído só cessou quando a estocada final se fez sentir em todo o corpo
do monstro e, surpreendentemente, uma fresta de luz de sol surgiu em meio aos
seus órgãos internos.
Foi
só ao seguir o facho de luz, indo parar na superfície marinha, que Brás
entendeu o que acontecera. O kraken havia tentado remover o que estava atacando
seu coração com os tentáculos – pontas de osso negro perfurando o interior do
corpanzil como os bisturis de um cirurgião. Por sorte, ou por destino, o
monstro morreu poucos metros antes de alcançar Brás; deixou, num presente
não-intencional, uma passagem segura para o lado de fora. Numa espécie de
sabedoria irracional e despaginada, a criatura subira à superfície para não
deixar água salgada penetrar a ferida autoinfligida.
A
punição para mentiras era conhecida por todo o império, por isso Brás terminou
seu relato explicando que a carcaça do monstro estava sob estudo da Academia e,
dentro em pouco, seria exibida para todos os interessados num futuro próximo. A
essa altura, porém, muito poucas pessoas foram capazes de escutá-lo – os
aplausos abafavam sua voz, estrondosos e vivazes. O resto da noite passou-se
num borrão festivo inflamado por heroísmo patriótico e absinto, e Brás foi
oficialmente dispensado na manhã seguinte. “Oficialmente”.
O
imperador voltou a convocá-lo algumas vezes depois do anúncio do Desfile da
Vitória que aconteceria dali duas semanas. Dom Artur III não o fizera
diretamente, é claro, porque isso denotaria predileção – mas seus assessores e
criados, os que assinavam os convites de Brás ao palácio, sempre desapareciam
por algum tempo quando o soberano de Evitérnia aparecia. O acadêmico e ele
trocavam palavras curtas, extensões daquelas tão estranhas perguntas feitas no
passeio pelos jardins. Brás não chegava a entender as conversas, o real sentido
delas, mas o imperador sempre parecia satisfeito quando as dava por encerradas.
Ele ordenou que um quadro de Brás fosse composto para exibição no Museu do
Heroísmo, assim como mandou que tirassem as medidas dele para um novo uniforme,
um que ostentasse o amarelo e verde do império em vez do azul da Academia. Era
implícito que aquele seria seu traje durante o desfile, assim como ficara
implícito que Brás não deveria assumir quaisquer compromissos nos próximos
dias. Não se sabia quando o imperador sentiria vontade de vê-lo novamente, por
isso Brás foi desobrigado de suas atividades como acadêmico até depois do desfile.
Era isso, acima de qualquer outra coisa, que impedia que ele se lançasse no
esquecimento prazeroso do trabalho braçal: receio de não estar à disposição
quando viesse o chamado de Dom Artur III.
Sentia-se
em dívida para com o imperador, e essa dívida nada tinha a ver com o senso de
devoção para com seu soberano. Ouvira dizer que o interesse de Dom Artur III
nos assuntos despaginados era apenas uma necessidade vã de ser notado pela
posteridade – Dom Artur, o Acadêmico –, mas tudo o que sentiu conversando com
ele foi sinceridade e, sem querer ofender, humanidade. Nas poucas interações
que Brás tivera com nobres, havia entre eles e ele uma barreira invisível, mas
real, que os impedia de tratá-lo como um igual. O imperador, em teoria o mais
nobre dos nobres e na prática sempre vestido com camadas e mais camadas dos
trajes mais caros de todo o mundo, falava com Brás sem formalidade ou senso de
superioridade. O bibliotecário gostava disso, ou talvez gostasse de como o
quadro estava ficando. A obra, feita por um dos melhores pintores do império,
acentuava as melhores características físicas de Brás, como seu queixo
pronunciado e seus olhos dourados, ao mesmo tempo em que “consertava” o que os
meses de naufrágio tinham destruído: no quadro, sua compleição estava de volta
aos ares atléticos de outrora, e seu cabelo castanho na altura dos ombros não
apresentava a aparência quebradiça por consequência do sal. Uma honra daquelas
era o suficiente para que qualquer um esperasse pelo eventual próximo chamado
do imperador.
Havia,
entretanto, o problema da loucura. Brás a sentia por baixo da pele, fria e
segmentada como o dorso de uma lacraia feita de pesadelos. Via o interior das
tripas do kraken sempre que fechava os olhos, sempre que entrava num cômodo à
meia-luz, sempre que sentia o cheio do mar trazido pela brisa. Ouvia Jessa e
Marquinho gritando enquanto eram despedaçados por polvos famintos demais para
levarem suas presas para o fundo do mar antes de começarem a comê-las, sentia o
estômago revirando devido ao enjoo marítimo que permanecia em terra e se
contorcia sempre que lembrava de certos detalhes, detalhes nada heroicos, que
deixara de fora de sua história para o imperador. Explodira o rosto de um
marinheiro que tentara roubar sua pistola, alimentara os filhotes do kraken com
os cadáveres dos que eram apanhados roubando comida... Do que seria capaz
quando não aguentasse mais essas lembranças? Brás tinha medo de descobrir.
Loucura
era o pior defeito que um bibliotecário poderia contrair, mesmo que fosse o
mais comum. Viesse ela da leitura constante ou do contato prolongado com despaginados,
a insanidade, mesmo em seus menores indícios, justificava a execução do
acadêmico defeituoso. Nos tempos idos, quando despaginados governavam a Terra,
humanos psicologicamente instáveis eram reverenciados como divindades. Era na
loucura que residia o poder de transformar livros em portais, e um leitor
suficientemente maluco era capaz de trazer cidades inteiras das páginas de um
tomo para o mundo real. Quando a Guerra da Expulsão começou, loucos tornaram-se
alvos de prioridade máxima. Quatrocentos anos depois, a Academia ainda
considerava os portadores da loucura como a maior ameaça ao império e à raça
humana como um todo.
Ironicamente,
outra ameaça reconhecida pela Academia era o abandono de antigas tradições
despaginadas. A Contestação de Destino era uma dessas tradições.
Despaginados,
criaturas de magia e imaginação, tinham crenças estranhas quando comparadas às
dos homens de carne e osso. Eles acreditavam no Destino, que estudiosos
passaram a definir como manifestação metafísica de um escritor supremo
decidindo o futuro do universo, e levavam o conceito tão a sério que, em 1200 e.d.a.,
foi criada uma cláusula legislativa que legalizava a “correção” do destino de
alguém. Funcionava assim: se o despaginado achasse que estava destinado a ter
alguma coisa, fosse ela um título ou um casamento, ele tinha a chance de
apresentar evidências disso. As evidências eram ridículas, como a direção em
que o vento estava soprando durante o julgamento ou o padrão do canto dos
pássaros empoleirados nas árvores próximas ao tribunal, mas, se o juiz sentisse
que seu próprio destino era aceitá-las como prova, o contestador recebia aquilo
que acreditava merecer.
Quando
o império eviternense assumiu o controle do mundo, descobriu da pior forma
possível que entregar certas tradições despaginadas ao esquecimento era uma má
ideia. Feitiços poderosos, densos com magia branca e preta, mantinham a
validade delas – festivais precisavam ser honrados, assim como as decisões de
um juiz de Destino. A cláusula de Contestação de Destino, assim, permaneceu
válida por quatrocentos anos mesmo que ela não fosse mais resolvida como
antigamente. Não; homens de carne e osso não acreditavam no canto dos pássaros
ou no sopro do vento, mas sim em aço e sangue derramado. A Contestação de
Destino, em sua forma contemporânea, tornou-se um desafio de combate para
decidir questões legais complicadas.
O
Príncipe não aprendeu nada disso em seu ano de estudos no exterior, uma vez que
escolas de memorização intermediária não permitiam a discussão de quaisquer
temas vagamente despaginados, mas sim quando tinha nove anos e se sentiu obrigado
a cuidar das feridas de um advogado que foi parar nas ruas depois de defender o
cliente errado. O homem chamava-se Bernardo, e pagou pelos cuidados que recebeu
com informações que um menino de rua comum julgaria inúteis.
Foi
com Bernardo que ele aprendeu a influência que a Família Grená tinha em todas
as questões jurídicas do império – eram uma Família de juízes, jurados e
executores. Só eles seriam capazes de retirar o sobrenome de alguém tão consolidado
na profissão quanto Bernardo e lançá-lo na sarjeta, e só eles colocariam
mercenários à procura do homem pelas ruas. A última lição que o advogado ferido
ensinou ao Príncipe antes de ser assassinado foi ficar longe de pessoas
estranhas oferecendo doces em bairros pobres – os empregados de lady Grená
usavam guloseimas para abduzir meninos bonitos e entregá-los à sua senhora.
Tinha sido esse, afinal, o motivo de Bernardo ter caído em desgraça: defender
judicialmente os pais de uma criança encontrada morta no dia seguinte a um dos
famosos “banquetes de juventude” de Medeia Grená.
Velho
demais para ser devorado, o Príncipe usou a fome disfarçada de afeição dela
para autenticar a Contestação de Destino de William Marino. O duelo estava para
começar mas, para o desespero do resto da Família, Júlio estava ocupado demais
para ir assisti-lo.
—
Vamos chegar atrasados — ralhou lorde Leonardo. — Se não quer sair até receber
suas notícias, pelo menos peça para que ele adiante um pouco. Uma versão
resumida, pois sim?
O
pregoeiro pausou em meio ao discurso que fazia sobre o aumento das taxas de
importação de vinho iberiano para olhar do lorde para o filho adotivo dele, que
escutava atentamente de sua poltrona. De onde estava no salão de estar, Júlio
conseguia ver Lancelot de braços cruzados, impaciente, no interior da carruagem
da Família. Ignorando-o, assim como pediu para que o pregoeiro ignorasse a
sugestão de lorde Leonardo, ele gesticulou para que o servidor público
continuasse normalmente o seu relato sobre os acontecimentos recentes. O pai
adotivo de Júlio suspirou, irritado, e cruzou os braços numa pose muito
parecida com a de seu filho.
—
...não apenas o vinho, como também a lã e o gado, sofrerão aumentos devido à
recente medida econômica para, segundo o rei, “recuperar o tempo perdido”. Ele
se refere, claro, ao período de quase seis meses em que a passagem marítima
para a costa iberiana foi bloqueada pelo que agora sabemos ter sido uma ninhada
de krakens. — O pregoeiro fez uma pausa, aceitando um pouco da água que um
criado de prontidão lhe ofereceu. — Crime organizado: chega a trinta e dois o
número de mortes sem resolução nos Distritos do Porto e do Trabalho. Ainda que
nenhuma declaração oficial tenha sido dada pela guarda capitalense, oficiais de
envolvidos na investigação expressam receio de que esse seja o resultado de um
conflito entre o sindicato do crime conhecido como Lobos do Mar e emissários
estrangeiros de uma organização criminosa conhecida como Punhal Negro radicada
na República de Tartária. Receosos e insatisfeitos com a ineficácia da guarda,
moradores e comerciantes de ambos os distritos...
O
Príncipe deixou de ouvir depois desse ponto, atirando uma moeda de ouro para as
mãos hábeis do pregoeiro quando percebeu que este tinha parado de falar. O
servidor agradeceu com uma mesura, recuperou o sino que depositara na mesa de
centro do grande salão de estar e foi guiado pelo criado até o lado de fora. Quando
ele passou pelo pátio, Lancelot praticamente gritou:
—
Finalmente! — Colocou a cabeça grisalha na janela aberta da carruagem, reunindo
as mãos em concha ao redor da boca na direção do interior da mansão. — Estamos
saindo ou o quê?
Lorde
Leonardo remexeu-se como se quisesse repetir a pergunta do filho, mas conteve-se
pelo receio de ser novamente ignorado. Júlio registrou o movimento, assim como
a gritaria do irmão adotivo, mas estava ocupado demais pensando. Trinta e dois
mortos... Um aumento de onze em relação ao dia anterior. Se por um lado aquilo
era bom, significando que a guerra continuava firme e os tartarianos
continuavam ocupados demais para cobrar a dívida do Príncipe, por outro lado
queria dizer que a situação em breve atrairia a atenção de autoridades bem
menos suscetíveis a ignorá-la. Também lhe preocupava o fato de nenhum dos mortos
no conflito ser estrangeiro. Os tartarianos estavam em sete; sete contra toda a
Nova Soteros, e eles estavam vencendo. Júlio amaldiçoou a própria estupidez em
se envolver com essa gente.
Ainda
imerso em ruminações preocupadas, ele se levantou sem dizer palavra e seguiu
para a carruagem. Lorde Leonardo o seguiu, indeciso entre expressar indignação
pelo tempo perdido e alívio por finalmente estarem de saída, e assim que pai e
filho adotivos se acomodaram nos bancos estofados da carruagem nova em folha, o
cocheiro urgiu os cavalos adiante. A comitiva Saturnino chegou à arena com
menos pompa do que o planejado, uma vez que os Grená perderam a paciência com
Júlio e foram na frente em vez de esperá-lo, mas a visão da carruagem ladeada
por mercenários à cavalo, tudo e todos nas cores alaranjadas da Família, atraiu
moderada atenção dos nobres que ainda não tinham tomado seus assentos na arena.
Júlio deixou que seu pai e Lancelot participassem do jogo social e,
acompanhando uma desanimada Luciana, tomou seu lugar no camarote da Família.
Sorrindo para si mesmo, ele viu quando um servo correu para avisar a William
Marino que os Saturnino tinham chegado. William, apesar da irracionalidade por
trás disso, lançou para Júlio um olhar aliviado de onde estava nas cercanias da
arena.
Era
um rapaz necessitado de autoconfiança, esse Marino deserdado. Enquanto ouvia as
notícias inúteis do pregoeiro à espera da contagem de corpos atualizada, Júlio
tinha nas fímbrias de sua consciência o divertimento de imaginar William se
desesperando com seu atraso. Pouco importava para ele que Edmundo já estivesse
na arena, completamente vestido com sua armadura negra e pronto para o duelo;
pouco importava que fosse o duelista, e não ele próprio ou Júlio, o responsável
pelo sucesso do plano deles; William parecia incapaz de se envolver com toda
aquela situação sem o Príncipe por perto.
Não
era frouxidão, uma vez que ele não tinha qualquer problema em lutar por si
mesmo quando Júlio lhe falou da Contestação de Destino pela primeira vez. Era
como se a caça aos noivos tivesse quebrado alguma coisa no interior dele, uma
coisa responsável por lhe fazer acreditar que tudo fosse dar certo, e estar
perto do homem que arruinara seus sonhos de casamento lhe devolvesse algum
nível de certeza na vida. Júlio não gostava da ideia de isso ser verdade. Por
mais que precisasse de William numa posição dependente no relacionamento deles,
não o queria emocionalmente incapacitado. Ainda não, pelo menos.
Ao
seu lado, a três assentos de distância, Luciana parecia não estar ali. O cabelo
branco da jovem Saturnino se espalhara ainda mais pelo comprimento dos fios,
sem dúvida por causa de todo o fracasso de sua tentativa de casamento, e ela
parecia mais magra e azeda a cada dia. Recusava-se a comer, cedendo ao jejum
apenas quando uma criada que fingia ser sua amiga lhe oferecia pães e queijo, e
falava apenas quando seu pai lhe perguntava alguma coisa. Era aparente pela
tensão em seus olhos que estar ali para assistir ao julgamento por combate do
ex-noivo era uma espécie de humilhação, e Júlio podia ver que trazê-la ali
prejudicaria alguns aspectos futuros de seus planos – mas o que se podia fazer?
Aquele era a primeira Contestação de Destino em trinta anos, e não seria nada
bonito para uma Família comparecer incompleta para a ocasião.
Apesar
da chegada atrasada, o duelo em si demorou meia hora para começar.
Pronunciamentos foram dados pelo Ministro da Justiça, um Grená que ainda tinha
na pele as marcas dos banhos de sol que vinha tomando na piscina da Mansão
Saturnino, e o Ministro da Guerra, que parecia animado com a perspectiva de um
duelo daquelas proporções. Foi enquanto este discursava sobre a importância de
demonstrações de força para as gerações mais jovens que lorde Leonardo
finalmente tomou seu lugar no centro do camarote com Lancelot sentado à sua
direita. Completamente esquecido do atraso que seu filho adotivo o fizera sofrer,
ele sorria e cochichava com Lancelot à guisa de uma menina de quinze anos. Sem
dúvida estivera cortejando uma viúva da família Eraquim; tinham marcado
encontro na arena depois de Júlio os ter apresentado num baile, e era evidente
pelo sorriso corado no rosto largo de Leonardo que o namoro ia bem.
—
E agora, sem mais delongas — anunciou a voz amplificada do juiz de Destino, um
rapaz Grená que fora apanhado na despensa da Mansão Saturnino com uma
cozinheira —, apresentamos os duelistas de hoje: William, deserdado, e Anselmo Marino.
Ao centro da arena, senhores.
Seguindo
uma sugestão de Tomás, William usava o traje nas cores azuis de sua Família. A
roupa apresentava visíveis sinais de desgaste, além de manchas de lama
contraídos no dia da fuga frustrada com Luciana e, segundo o camareiro, atrairia
a simpatia dos nobres. Ele provou-se certo quando uma onda de murmúrios
compadecidos assinalou o momento em que William postou-se no centro da arena.
Perto do pai, que vestia-se com toda a opulência de um lorde de sangue antigo,
ele parecia trabalhador e simpático, digno de torcida em vez de pena. Ajudava
que o rosto de Anselmo Marino fosse uma careta nariguda de irritação – ele
deixara claro que contestaria a decisão do Ministério de Justiça aceitar a
Contestação de Destino, e em seu rosto trazia muito pouco além de desdém por
toda a cerimônia.
—
Senhor William — o juiz vociferou de seu estrado, ajustando a toga amarela e
verde ao redor do corpo. — É o senhor quem luta pela contestação de seu
destino?
—
Não, meritíssimo — William gesticulou teatralmente para o soldado em armadura
negra de pé na extremidade sul da arena. — Quem luta é Edmundo Nebrim, primeiro
de seu nome.
Foi
como se alguém tivesse gritado uma obscenidade achando que o barulho das muitas
conversas paralelas fosse abafar o ato. Silêncio varreu as arquibancadas,
espalhando-se como uma onda gélida de descrença pelos camarotes. Júlio
observou, divertindo-se, o rosto de lorde Luciano contorcer-se num susto
franco. Lancelot praguejou, soando mais animado que surpreso.
—
A Família Nebrim não existe mais — o Príncipe comentou olhando para Luciana,
que parecia francamente confusa com a reação geral. — Ou, pelo menos, não
deveria existir.
—
O sobrenome deles não foi revogado? — Lancelot perguntou. Olhava para a
armadura negra, traços de reconhecimento em suas feições ao examinar detalhes
característicos nas manoplas e grevas. — Foi o que ouvi, digo. Eles não são
mais nobres, certo?
—
Na verdade, sim, eles são — Luciano levantou-se de sua poltrona para observar
melhor do parapeito do camarote. — Os Nebrim nunca foram oficialmente
destituídos de sua nobreza. Ninguém achou que precisasse, já que estavam todos
mortos. — Ele juntou as sobrancelhas. — Parece que estavam errados.
Comentários
similares se espalhavam pelas arquibancadas abaixo, e em segundos o silêncio
perplexo foi demolido por uma onda desordenada de conversas. O juiz pediu
ordem, ele próprio parecendo atônito, e foi só quando o barulho diminuiu que
ele tomou a única atitude possível: fingir que nada tinha acontecido.
—
Senhor Marino — ele elevou a voz para abafar os últimos resquícios de
falatório. — É o senhor quem luta para reafirmar seu destino?
—
Não, senhor — Anselmo já não tinha tanto do desdém em seu rosto antipático; ele
olhava do filho para o cavaleiro negro com uma expressão perigosamente próxima
à incerteza. — Quem luta é Fausto, mercenário que serve sob meu sobrenome.
—
Pois bem — o juiz sinalizou para que ambos deixassem a arena ao mesmo tempo em
que pediu para que Edmundo e Fausto tomassem seus respectivos lugares. — Pelo
poder investido a mim como representante da lei falada, consagro esse duelo
como uma representação da vontade do Destino. Lutem bem.
Nem
bem o juiz tinha terminado de falar quando Edmundo desembainhou sua espada e
partiu Fausto no meio com ela. Quem não estava prestando atenção, pensando que
os lutadores perderiam algum tempo testando os limites um do outro antes de
começarem, não viu o golpe; quem estava atento, principalmente por um dos
lutadores ser um Nebrim, não foi capaz de acreditar na velocidade com que ele
aconteceu. O braço direito de Edmundo moveu-se como um pistão, retirando a
lâmina da bainha e passando-a através da barriga do adversário em ato contínuo,
e para os mais distraídos foi difícil dizer se ele tinha realmente se movido.
Os ruídos desesperados emitidos por Fausto em seus momentos finais foram o
único som em toda a arena por muito tempo antes de o juiz, que ficara
paralisado no ato de se sentar, retomar a palavra:
—
O Destino se pronunciou — ele apontou para Edmundo, que se curvou como mandava
o protocolo. — Que hoje marque o dia em que William Marino recuperou seu
sobrenome e se tornou o líder de sua Família. Pela graça do imperador e...
O
resto foi engolido por uma onda de gritaria – protestos, principalmente, mas
também algumas risadas maravilhadas como a de Lancelot. De seu canto na arena,
William gritava com uma felicidade que beirava a insanidade. Do lado oposto,
todo o contingente dos Marino tentava subir pelas escadas que levavam até o
tablado do juiz para falar com ele. Júlio, finalmente pondo de lado a menor de
suas dúvidas quanto ao funcionamento do braço despaginado de Edmundo, conteve
uma gargalhada e limitou-se a pedir uma bebida para um servo próximo. Seus
pensamentos foram para o desfile vindouro, a próxima etapa de seu plano, ao
mesmo tempo em que Brás tentava esquecer do mesmo evento.
Trabalhar
tanto tempo depois de a loucura começar a se instalar provou-se menos efetivo
do que o normal, por isso o acadêmico se entregou ao esforço físico com tanto
desprendimento que só percebeu o tempo passar quando o último dos raios de sol
desapareceu no horizonte. Ele reencontrou-se com Jão, o sapateiro, e lhe ajudou
a remendar botas militares e sandálias de couro; logo em sequência ajudou a
sovar a massa para o pão da tarde com Mina; almoçou com Gilberto, o pescador,
enquanto revezavam entre a vara e rede; sua tarde foi um completo borrão de
madeira reduzida a pó e pregos sendo martelados na companhia de Tiago. Mesmo
despedindo-se de cada um deles no momento em que o trabalho acabava, conversar
com seus amigos completamente analfabetos foi como um bálsamo para as marcas de
queimado deixadas pela loucura. O trabalho criou bolhas em suas mãos, mas
ajudou a firmá-las onde antes o medo as fazia tremer.
Quando
a noite caiu, Brás aceitou tomar um cafezinho com Tiago. Eles estiraram as
pernas em bancos esculpidos a partir de tocos de árvore dispostos na calçada da
marcenaria e tiveram suas xícaras reabastecidas por Sara, a esposa do artesão,
antes que ficassem completamente vazias. O calor da bebida, apesar de seu efeito
energético, acalmou Brás. Ele sentiu a brisa crepuscular trazer um pouco do
cheiro do oceano e surpreendeu-se ao perceber que ela já não o fazia pensar no
demônio marítimo que o devorara. Tiago conversava sobre tudo e nada, e dentro
em pouco o acadêmico se viu entabulando um diálogo sobre sonhos estranhos. Brás
mal teria registrado sobre o que falavam se não fosse pelo momento em que Sara,
numa de suas idas e vindas da cozinha, comentou que tinha sonhado com algo
parecido.
O
treinamento recebido na Academia se enraizava na alma da pessoa, e era
suficiente para fazer com que ela reagisse a ele mesmo sem perceber. No momento
em que Sara falou, a mente previamente relaxada de Brás reconfigurou-se num
estado de alerta similar ao de combate:
—
Como assim, “algo parecido”?
Sara
surpreendeu-se com o tom rígido na voz do bibliotecário.
—
Também sonhei com um bicho que nem o que o Tiago descreveu — ela respondeu,
incerta do que a pergunta se referia. — Parecia um macaco, mas tinha quatro
braços e era coberto de espinhos. O pelo era vermelho... Não, marrom.
Acobreado. Acho que ele tinha asas também. Asas de barata.
—
E quando foi isso?
—
Na mesma noite — Sara pareceu, então, perceber a estranheza daquilo. — Pelo amor.
Brás
agradeceu pelo café, puxou o distintivo do bolso de suas roupas civis e deu uma
volta pelo quarteirão. Sempre que via alguém com aparência cansada ou
assustada, mostrava o pedaço de metal gravado com o A da Academia e fazia
algumas perguntas. Não demorou até perceber que todos naquela região do
Não-Distrito tinham tido o mesmo sonho ao mesmo tempo – três noites atrás.
Mapeando
as entrevistas em sua mente, Brás delimitou um raio de pessoas afetadas pelo
sonho e se dirigiu para onde pensava ser o epicentro do fenômeno: as ruínas do
que parecia ter sido uma mansão quatrocentos anos antes. Não era incomum que
ecos dos antigos moradores despaginados do Não-Distrito sobrevivessem nos
sonhos dos que viviam por perto, mas o instinto acadêmico de Brás dizia que
aquele não era o caso. “Primata com quatro braços e asas de barata” não soava
como a descrição do tipo de despaginado rico que costumava morar por ali. O
bibliotecário fez algumas rondas pelas ruínas, chegando a penetrar o interior
delas, antes de decidir que a busca precisava continuar no acervo de livros da
Academia.

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ExcluirPor um momento fiquei com medo de você por você gostar do Yohan.
ResponderExcluirAs vezes as histórias dizem muito sobre como está a nossa mente, e eu estou depressiva. Sinto muito por te assustar
ResponderExcluirOlha Arrogante, sei que você me odeia, eu estava mal emocionalmente, mas eu to preocupada com você. Assim, a última notícia que tive sua você queria me estrucidar. E acho que foi em fevereiro. Mas eu não tenho mais nenhuma notícia sua, você nem atualiza principe das letras direito, eu nem sabia que tava no wattpad. Cadê os seus leitores cobrando atualização? Você ta bem?
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ResponderExcluirVocê pode até virar pra mim e falar: Por sua culpa eu sai do Nyah! E eu não tive o retorno dos mesmos comentários. EU VIRO E FALO: POR SUA CULPA EU DECIDI FAZER UMA NOVA FACULDADE. POR SUA CULPA EU DECIDI ACOMPANHAR MULHER MARAVILHA E SUPERMAN. POR SUA CULPA EU PAREI DE FALAR COM PESSOAS COM MENOS DE 18 ANOS NA INTERNET.
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ResponderExcluirhttps://fanfiction.com.br/historia/814254/Avant_La_Lettre/ (olha é assim que vejo a sua obra)
ResponderExcluirEu estou estudando o seu trabalho, lembro que você disse que havia se inspirado em Máquiavel e estava procurando por um arquétipo de guerreiro.
ResponderExcluirVocê elogiou tanto a minha inteligência que eu me sinto forçada a estudar, o Laurentino (Você disse várias vezes que não era ele) me xinga, diz que cago pelos dedos. E eu tento estudar Maquiavel.
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ResponderExcluirPor exemplo Grená é uma pedra, e é a pedra de granada, ela é vermelha (Existe realmente existe uma pedra preciosa chamada granada). E também solta fumaça quando explode
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ResponderExcluirVocê se fingiu de burro e PAROU DE ESCREVER! você fingiu não saber de nada NADA.
ResponderExcluiramélio Arnor Espadeira não é papa, não acho algumas coisas sobre outras pessoas
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ResponderExcluirSim, acho que você usou Velma para não usar Daphne
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ResponderExcluirótimo, você fala elfico
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ResponderExcluirpoxa, tem um amalion em tolkien. mas o arnor me lembra muito rio arno, fiquei triste agora. Até achei um arnor nas obras de tolkien
ResponderExcluirTUDO É STALKING PRA VOCÊS TUDO. A PESSOA nÂO PODE TE ACHAR UM ESCRITOR FANTÀSTICO PODE TE ADMIRAR COMO SER HUMANO MAS AI DERREPENTE DA UMA BRIGA E TUDO VIRA STALKING E PERSEGUIÇÃO que saco da até vontade de excluir TUDO
ResponderExcluirAi a pessoa VIRA E FALA A É ASSÉDIO AI EU FICO ASSIM SE VOCÊ SE SENTE ABUSADO SEXUALMENTE OU DE QUALQUER OUtRA FORMA ME PERDOA PORQUE EU ODEIO ME SENTIR ABUSADA EU ODEIO ME SENTIR ABUSADA E VOCÊS ME ACUSAM DISSO. E EU ME MATO
ResponderExcluirBloquear um contato é como assinar uma sentença de morte para um relacionamento. A pessoa que é bloqueada é retirada do convívio, como se tivesse sido condenada a um exílio emocional. A comunicação, que antes pulsava com vida e interações, é abruptamente cortada, como se a conexão fosse desligada em um instante. OU SEJA TODO MUNDO QUE ME BLOQUEIA NA MINHA CABEÇA DIZ ISSO DAQUI: PARABÈNS URSULA PODE SE MATAR
ResponderExcluirE o fato do Alec, da Ana, do Luiz e outras pessoas começarem a excluir conteúdos em que eu participo e eu me importo com eles e eles seguem a vida normalmente e eu sigo preocupada com eles. e eu sigo pensando neles e eu fico doente e não melhoro da depressão me faz cogitar eutanasia. e o maquiavel, exatamente como no livro de que você leu disse: as pessoas tendem ao conflito
ResponderExcluirE eu fico mal, porque minha mãe chega em casa faz comida. E eu não tenho tomado banho. Meu pai vira e fala: Você não está comendo a comida porque não tem amor no coração. E você quer machucar a gente. E aí eu de repente comer vira uma questão de ser uma pessoa boa ou má ou ter bom coração. E aí meu pai vira e fala: Você ta esperando a gente morrer. E eu fico assim; Eu to querendo ir antes. Minha mãe: Eu vou morrer de desgosto se você for antes. E eu já fico assim: Ah eu não tenho amor no coração porque não como a comida '-' e eu não tomo banho porque não tenho amor no coração '-'' e vocês fazem comida e me forçam a comer
ResponderExcluirAcho que meus antidepressivos vão aumentar de novo, porque de repente eu ser uma pessoa boa ou má depende de eu estar comendo e eu não entendo mais a sociedade
ResponderExcluirEntão eu peço ajuda pra um enfermeiro do site, excluem meu comentário. Com esse conflito todo de ninguém querer voltar a falar comigo ou de não me querer de volta na vida eu só acho que são todos a favor da pena de morte
ResponderExcluirMas como as pessoas do nyah, vc ou os outros não me procuram eu fico assim: eu devia ta morta desde 2019 teria me poupado de muita coisa e vcs tbm
ResponderExcluirComo essa visão da sua história é minha, eu vou fazer uma história com essa visão. Achei bem legal. i
ResponderExcluirOi Arrogante, tudo bem? Por favor não me acuse de Stalking, ou de Assédio. Eu to aqui dizendo que eu to vivendo basicamente porque você criou esse livro. E porque você me chamou de inteligente, eu falei com o Luiz Henrique e disse que o livro dele me fazia estudar e feliz, ele me acusa de stalking. Por favor não me acuse. O Livro Em Busca da Felicidade da Mamãe do Alec Silva não me faz mais querer ficar viva. O Alec Silva me faz querer ficar morta. Então eu to aqui porque basicamente eu te conheci, conheci o seu livro e to vivendo por causa dele. desculpa
ResponderExcluircara eu to ficando cansada, eu erro com as pessoas e elas não perdoam. elas não voltam eu to disposta a me matar. só que ta ficando dificil. a amanda a minha amiga não me da atenção pessoalmente, ela não me chama pra conversar, minha outra amiga não me manda mensagem. é só eu que mando. meu irmão não fala comigo. Minha mãe vira e fala: Se você morrer antes de mim eu vou morrer de desgosto. MAS LITERALMENTE SÒ ELES DOIS SE IMPORTAM COMIGO, NEM O MEU IRMÂO CONVERSA COMIGO. E EU NÂO QUERO PASSAR A ETERNIDDE DA MINHA VIDA SOZINHA ARREPENDIDA POR TER PERDIDO VARIAS PESSOAS> EU QUERO MORRER ANTES>
ResponderExcluirEnfim, toda vez que me falam: Stalker, Perseguição, eu fico pensando no BTK. Mas acho que as pessoas não sabem quem é o BTK. O Btk é um cara que ele perseguia as pessoas, tipo ele via a casa delas, apagava a linha de telefone, e matava a pessoa '
ResponderExcluirsei lá, todo mundo que me bloqueia não vem perguntar como eu to me sentindo ou sei lá me quer morta, sabe por que? Porque assim, quando você bloqueia alguém você não tem mais notícia da pessoa. Aí fico pensando: Se eu falo que vou me matar é chantagem, se eu tento resolver a situação não quer. Se eu vou atrás pra conversar de novo é stalking. puxa. fico sofrendo. infelizmente viva
ResponderExcluirsabe uma coisa legal? é que judas se matou por arrependimento, então suicídio é liberado quando ta arrependido
ResponderExcluireutanásia é legalizada em portugal, posso tentar lá. as vezes liberam pra caso psiquiatrico, não vou ter melhora mesmo. meus problemas são com outras pessoas as pessoas não tão nem aí e é isso. sei lá quem sabe eu acerto o remédio no brasil mesmo e morro.
ResponderExcluirEu ainda estou muito chateada com a briga e com o fato de vc não ter me perdoado por te chamar de laurentino. desculpa. eu realmente estou triste. mas acho que você é a minha pessoa conforto. só espero que diferente da Ana você não me julgue ou me chame de maluca. É diferente de psicólogo
ResponderExcluirNa minha internação por suicídio (Nas duas, porque não pude me desculpar com você por tudo de ruim que aconteceu inclusive) eu conheci uma moça chamada jéssica. Eu tava tão mal, que te procurei em toda a parte, falava com estranhos na rua, perguntando se eram você. E me perguntava se você era o Alec Silva. Eu perguntei pra jéssica se ela o Alec Silva Trans porque eu tinha que me desculpar com ele/você. E disse que se ela fosse ele, eu a amaria mesmo assim. Eu escrevi bilhetinhos pra ela no mesmo quarto. Orei pela moça e senhora a noite, me ajoelhava ao pé da cama de internação das duas e orava.
ResponderExcluirFoi uma das internações mais difíceis, porque fiquei muito agressiva, mas acho que foi porque envolveu o assunto dos nudes, uma perda emocional muito grande, outra perda... e outra perda. Eu me senti perseguida por várias contas do nyah e eu sabia quem eram as identidades. E meus pais ficaram agressivos. Eles perderam a paciencia e eu não queria mais tomar os remédiso, só queria me sentir segura. Joguei água no rosto do meu pai, ele bateu no meu rosto. E eu continuava mal, mas dessa vez eu me sentia agredida e sem alguém em quem confiar, minha mãe perdia a paciência e me ameaçava de murro. e eu ficava com medo e ligava para a polícia.
ResponderExcluirE eu não sabia quem eram as identidades*
ResponderExcluirNo final a amiga me acusou de psicose diária e isso me da muita dor e eu voltaria pra ela mesmo assim. Mesmo esse não sendo o meu diagnóstico, disse que era maluca e etc. e eu falei coisas ruins dela tbm. a diferença é que ela é influencer. e eu acho um super preconceito e acho super ruim uma mulher chamar outra mulher de maluca. e não, não dou golpe. eu estava com o remédio ERRADO psiquiatrico e estava sem andar, eu achei que ia morrer. mas descobriram que era o remédio PSIQUIATRICO de depressão que me fazia ficar sem andar por isso não fiz a vaquinha e NEM PRECISEI, NA EPOCA EU SÓ FICAVA COM MEDO, tava sem andar.
ResponderExcluirNa minha internação Jéssica levou um radinho escondido, ganhei um também, mas como tinha uma mensagem de uma câmera com cocô (traduzi como Scat e é quase a mesma pronuncia que Sketch) na caixa com uma câmera achei que estava sofrendo Sketch (ou seja tinha alguém me filmando e vendo e eu conversava, no final destrui a caixa de música, não tinha ninguém me filmando). Na playlist do pendrive tinha algumas músicas, uma que o blueballs indicou como the backstreet boys e muitas músicas do stromae porque me lembravam você. algumas do elvis. Essa sensação de estar sendo filmada sim também veio do trauma do nude, mas também porque o meu pai tinha pego a mania de me filmar chorando e estressada.
ResponderExcluiras conversas com o cuspidor de fatos usando cigarros me fez querer fumar cigarro, e tipo de verdade, mas eu sempre me apeguei a Gisele Bundchen, que é uma moça que não usou e é mais natural. E sim, aquela amiga que usou maconha em 2015 também me influciava a coisas ruins.
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ResponderExcluireu só fui atrás das suas amigas para conversar pra você me desculpar se você não se desculpa com seus amigos o problema é seu. porque eu estou pensando em morrer
ResponderExcluirArrogante, eu vou morrer. Você vai voltar diferente, talvez casado, ou talvez nem volte e eu não. Eu quero morrer.
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