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Príncipe das Letras – Capítulo Seis – Resiliência do Mais Forte

 

Brás de Assis percebeu, em dado momento, precisava mesmo ir trabalhar.

Era assim que descansava a mente – trabalhando. O hábito surgira em seus primeiros anos na Academia, consequência do estado caótico de seus pensamentos depois de horas intermináveis de memorização, leitura e treinamento de combate. O corpo, Brás percebeu, era indiferente à exaustão espiritual dos estudos. Ele então passou a usar suas horas livres em escapadas muito pouco comuns para um jovem aluno da mais prestigiosa instituição do mundo: metia-se a aprendiz de carpinteiros, sapateiros, estivadores, alquimistas ou seja lá quem precisasse de um ajudante sem nome. O conhecimento acumulado nos anos dentro da Academia permitiam que Brás desempenhasse qualquer função, facilitando o aprendizado de novas habilidades, mas ele se concentrava no aspecto físico da coisa. Corria para dar recados, firmava tábuas para serem marteladas, mantinha o fogo de uma forja aceso... Tudo para não deixar que seus pensamentos o consumissem, para não sentir a confusão de sua mente chegando à superfície.

Com o passar dos anos, a mente de Brás deixou-se domar e a prática de perder finais de semana ajudando trabalhadores braçais se tornou um passatempo irregular e feito para visitar velhos amigos, e não dominar pensamentos arredios. Depois de finalmente ser elevado ao cargo de bibliotecário, e depois de participar de todas as expedições de extermínio desde a Ducentésima Décima Sexta, Brás passou a refugiar-se em meio a ferramentas e atividades cansativas para acalmar outro tipo de inquietação psicológica: medo.

O povo comum chamava criaturas despaginadas de demônios por falta de conhecimento, e os acadêmicos o faziam por conhecê-las bem demais. Não eram muitos os que sobreviviam ao contato hostil direto com um despaginado, e menos ainda eram aqueles que saíam da experiência com todos os parafusos no lugar. Brás já havia lutado contra bruxas fantasmagóricas feitas de névoa e enfrentara tanto seus dentes afiados quanto os sussurros delas em seus sonhos; ele já fora emboscado por gigantescos escorpiões do deserto, monstruosidades escuras cujo veneno liquefazia a carne humana; ele já enfrentara, no topo flamejante de um dirigível em queda livre, pássaros-trovão cujo tamanho, em plena envergadura, poderia cobrir o palácio imperial em sombra. Cada experiência, Brás conseguia sentir, o tornava menos são – mas antes de a loucura firmar-se ele se focava numa atividade banal qualquer e, ao término dela, as memórias de terror e desespero pareciam distantes demais para afetarem-no permanentemente.

Era de se imaginar que um ritual tão antigo para Brás, e que tivesse se provado tão eficaz, só pudesse ser interrompido pelo imperador de Evitérnia em pessoa. Dom Artur III era famoso por sua displicência no que tangia a exercícios físicos, exemplificada pelo tamanho de sua barriga, e também pela atenção que dava à Academia Imperial; era só por causa dele que a instituição não havia cessado suas atividades financeiramente dispendiosas fora do território eviternense. Quando Brás voltou, sozinho, do desastre que foi a Ducentésima Vigésima Nona, era da opinião do Conselho de Reitores que o imperador deveria ser a primeira pessoa a quem ele relataria os acontecimentos fatídicos da última expedição. A audiência com o soberano, que não deveria ter durado mais de quarenta minutos, estendeu-se por quatro dias.

Dom Artur III parecia fascinado com a história de como a Ducentésima Vigésima Nona, a bordo do poderoso Vida Eterna, foi completamente dizimada pelo maior kraken já catalogado pela Academia. O imperador pediu descrições vívidas do monstro marinho, que Brás não sabia como fazer porque tudo que vira da criatura foram seus tentáculos quando ela partiu o navio de guerra em dois. Brás também não sabia como falar das mortes de seus amigos e colegas, tanto pelos krakens filhotes que vieram pescar depois de naufragado o navio quanto pelo acidente em si, sem que sua voz se perdesse em murmúrios baixos e que suas mãos começassem a tremer incontrolavelmente. Dom Artur III, ao que parecia, não se importava muito. Deu a Brás um quarto no palácio e fez de sua estadia uma espécie de festa fora de época. No segundo dia contando sua história, o acadêmico o fez cercado de metade da corte imperial e num palco, porque apenas assim sua figura magra e alquebrada poderia ser vista em meio à recém-implementada decoração do salão de baile.

Ciente da importância de sair-se bem para a Academia, e empurrando os pensamentos sombrios para um canto já atulhado de recordações ruins, Brás falou sobre como o kraken surgia em intervalos regulares para engolir um punhado de pessoas, vivas ou mortas, que estivessem boiando na superfície. A chegada do monstro era anunciada pela urgência com que suas crias se escondiam sob as ondas, e foi numa dessas ocasiões em que Brás conseguiu sobreviver ao ataque esfomeado de um polvo encouraçado do tamanho de um pônei.

Um a um, seus camaradas acadêmicos foram levados para as profundezas. Um pequeno grupo de sobreviventes montou resistência num dos poucos destroços do navio grande o suficiente para servir de jangada, Brás liderando-os, mas os dias que passaram defendendo-se dos ataques dos filhotes com pedaços de pau e um único sabre foram perdidos quando a mãe tomou nota deles. “Como se fôssemos uma refeição num prato”, Brás descreveu, encerrando o segundo dia de sua história contra o silêncio horrorizado dos nobres. Na noite daquele mesmo dia, o imperador o convidou para um passeio pelos jardins do palácio.

Ao contrário do que Brás esperava, Dom Artur III não queria saber o final da história antecipadamente. Os olhos verdes do soberano eviternense pareciam interessados em Brás, no homem e não no oficial, e o passeio foi marcado por perguntas curiosas. Ele gostava de trabalhar na Academia? Estava satisfeito com a vida que levava? Sem saber como responder àquilo segundo pedia o protocolo, Brás decidiu ser sincero. Sim, gostava de ser acadêmico. Não, não tinha do que reclamar na vida... Tirando, é claro, a constante ameaça de morte. Não, não tinha parentes vivos. Sim, fora acolhido para a Academia como órfão.

Falar sobre o seus primeiros anos na Academia era tão desagradável quanto falar do kraken porque, a bem da verdade, ambos os assuntos traziam memórias igualmente dolorosas. Os homens em uniformes azuis-celestes vieram buscá-lo dois dias depois que a peste levara sua mãe para o túmulo, e muito do que se lembrava dos primeiros dias no alojamento de órfãos era marcado pelo luto recente. O imperador, fosse por perceber que o assunto não era dos preferíveis ou por ter algo melhor para fazer numa noite de festa e comemoração, dispensou Brás depois de uma curta volta pelos jardins.

O dia seguinte trouxe um salão de festas com o dobro de nobres e um palco duplamente mais alto. Brás lembrou-se de cada técnica narrativa que aprendera na Academia, de cada pequeno detalhe em histórias de terror que havia lido, para pintar a imagem mental do interior do estômago do kraken, onde fora parar depois de a criatura engolir sua jangada numa bocada só. Uma condessa, arquejando alto, desmaiou diante da descrição de um amigo de Brás, Vicente, sendo dissolvido pelos fluídos intestinais do monstro; a cena conseguiu um efeito parecido em quase todos, à exceção do próprio imperador, que observava Brás com olhos fascinados. O acadêmico, enfim, contou como usou o sabre para procurar, no escuro úmido e fedorento das cavernas que eram o interior do kraken, por uma saída. Quase sem ar para respirar e sem forças para cortar caminho pelas entranhas do monstro, Brás acabou encontrando o coração da criatura. Ciente de que estava para morrer e com sede de vingança, ele cravou o sabre no órgão pulsante.

Houve sonoros protestos quando Brás declarou que aquilo era tudo que contaria naquele dia, mas o imperador aprovou a escolha – achava divertida a empolgação incontida de seus subalternos. Na noite subsequente, Brás recebeu visitas de muitos nobres com presentes e insinuações de promessas em troca de uma dica do que aconteceria a seguir. Ele recusou os presentes condicionados dando seu melhor para não ofender ninguém e, até tarde da noite, criou em sua mente um roteiro para que contasse a história da melhor forma possível. Tinha criado expectativas e queria atendê-las.

No quarto e último dia, nobres de fora da capital deram o ar de sua graça. O palco de Brás foi movido para os jardins, onde mesas de banquete foram posicionadas em oposição a ele, e lamparinas coloridas foram acomodadas em meio aos galhos das árvores circundantes. A única coisa mais surpreendente que a quantidade de pessoas reunidas para ouvir a história de Brás era o silêncio em que elas se colocaram assim que ele começou a falar; até o vento aquietou-se, curioso para ver como a história acabava.

O acadêmico falou sobre uma característica até então desconhecida sobre a natureza dos krakens – eram capazes de atitudes completamente impensáveis para sobreviver. Quando o sabre de Brás fez seu coração sangrar, todo o polvo gigante estremeceu, e um som terrível encheu o interior de suas entranhas: o de carne rasgando. Sem entender e, francamente, sem se importar com o que estava acontecendo, Brás tornou a cravar sua lâmina no coração colossal da criatura. Ele repetiu o gesto um sem-número de vezes, ignorando o som que crescia às suas costas. O ruído só cessou quando a estocada final se fez sentir em todo o corpo do monstro e, surpreendentemente, uma fresta de luz de sol surgiu em meio aos seus órgãos internos.

Foi só ao seguir o facho de luz, indo parar na superfície marinha, que Brás entendeu o que acontecera. O kraken havia tentado remover o que estava atacando seu coração com os tentáculos – pontas de osso negro perfurando o interior do corpanzil como os bisturis de um cirurgião. Por sorte, ou por destino, o monstro morreu poucos metros antes de alcançar Brás; deixou, num presente não-intencional, uma passagem segura para o lado de fora. Numa espécie de sabedoria irracional e despaginada, a criatura subira à superfície para não deixar água salgada penetrar a ferida autoinfligida.

A punição para mentiras era conhecida por todo o império, por isso Brás terminou seu relato explicando que a carcaça do monstro estava sob estudo da Academia e, dentro em pouco, seria exibida para todos os interessados num futuro próximo. A essa altura, porém, muito poucas pessoas foram capazes de escutá-lo – os aplausos abafavam sua voz, estrondosos e vivazes. O resto da noite passou-se num borrão festivo inflamado por heroísmo patriótico e absinto, e Brás foi oficialmente dispensado na manhã seguinte. “Oficialmente”.

O imperador voltou a convocá-lo algumas vezes depois do anúncio do Desfile da Vitória que aconteceria dali duas semanas. Dom Artur III não o fizera diretamente, é claro, porque isso denotaria predileção – mas seus assessores e criados, os que assinavam os convites de Brás ao palácio, sempre desapareciam por algum tempo quando o soberano de Evitérnia aparecia. O acadêmico e ele trocavam palavras curtas, extensões daquelas tão estranhas perguntas feitas no passeio pelos jardins. Brás não chegava a entender as conversas, o real sentido delas, mas o imperador sempre parecia satisfeito quando as dava por encerradas. Ele ordenou que um quadro de Brás fosse composto para exibição no Museu do Heroísmo, assim como mandou que tirassem as medidas dele para um novo uniforme, um que ostentasse o amarelo e verde do império em vez do azul da Academia. Era implícito que aquele seria seu traje durante o desfile, assim como ficara implícito que Brás não deveria assumir quaisquer compromissos nos próximos dias. Não se sabia quando o imperador sentiria vontade de vê-lo novamente, por isso Brás foi desobrigado de suas atividades como acadêmico até depois do desfile. Era isso, acima de qualquer outra coisa, que impedia que ele se lançasse no esquecimento prazeroso do trabalho braçal: receio de não estar à disposição quando viesse o chamado de Dom Artur III.

Sentia-se em dívida para com o imperador, e essa dívida nada tinha a ver com o senso de devoção para com seu soberano. Ouvira dizer que o interesse de Dom Artur III nos assuntos despaginados era apenas uma necessidade vã de ser notado pela posteridade – Dom Artur, o Acadêmico –, mas tudo o que sentiu conversando com ele foi sinceridade e, sem querer ofender, humanidade. Nas poucas interações que Brás tivera com nobres, havia entre eles e ele uma barreira invisível, mas real, que os impedia de tratá-lo como um igual. O imperador, em teoria o mais nobre dos nobres e na prática sempre vestido com camadas e mais camadas dos trajes mais caros de todo o mundo, falava com Brás sem formalidade ou senso de superioridade. O bibliotecário gostava disso, ou talvez gostasse de como o quadro estava ficando. A obra, feita por um dos melhores pintores do império, acentuava as melhores características físicas de Brás, como seu queixo pronunciado e seus olhos dourados, ao mesmo tempo em que “consertava” o que os meses de naufrágio tinham destruído: no quadro, sua compleição estava de volta aos ares atléticos de outrora, e seu cabelo castanho na altura dos ombros não apresentava a aparência quebradiça por consequência do sal. Uma honra daquelas era o suficiente para que qualquer um esperasse pelo eventual próximo chamado do imperador.

Havia, entretanto, o problema da loucura. Brás a sentia por baixo da pele, fria e segmentada como o dorso de uma lacraia feita de pesadelos. Via o interior das tripas do kraken sempre que fechava os olhos, sempre que entrava num cômodo à meia-luz, sempre que sentia o cheio do mar trazido pela brisa. Ouvia Jessa e Marquinho gritando enquanto eram despedaçados por polvos famintos demais para levarem suas presas para o fundo do mar antes de começarem a comê-las, sentia o estômago revirando devido ao enjoo marítimo que permanecia em terra e se contorcia sempre que lembrava de certos detalhes, detalhes nada heroicos, que deixara de fora de sua história para o imperador. Explodira o rosto de um marinheiro que tentara roubar sua pistola, alimentara os filhotes do kraken com os cadáveres dos que eram apanhados roubando comida... Do que seria capaz quando não aguentasse mais essas lembranças? Brás tinha medo de descobrir.

Loucura era o pior defeito que um bibliotecário poderia contrair, mesmo que fosse o mais comum. Viesse ela da leitura constante ou do contato prolongado com despaginados, a insanidade, mesmo em seus menores indícios, justificava a execução do acadêmico defeituoso. Nos tempos idos, quando despaginados governavam a Terra, humanos psicologicamente instáveis eram reverenciados como divindades. Era na loucura que residia o poder de transformar livros em portais, e um leitor suficientemente maluco era capaz de trazer cidades inteiras das páginas de um tomo para o mundo real. Quando a Guerra da Expulsão começou, loucos tornaram-se alvos de prioridade máxima. Quatrocentos anos depois, a Academia ainda considerava os portadores da loucura como a maior ameaça ao império e à raça humana como um todo.

Ironicamente, outra ameaça reconhecida pela Academia era o abandono de antigas tradições despaginadas. A Contestação de Destino era uma dessas tradições.

Despaginados, criaturas de magia e imaginação, tinham crenças estranhas quando comparadas às dos homens de carne e osso. Eles acreditavam no Destino, que estudiosos passaram a definir como manifestação metafísica de um escritor supremo decidindo o futuro do universo, e levavam o conceito tão a sério que, em 1200 e.d.a., foi criada uma cláusula legislativa que legalizava a “correção” do destino de alguém. Funcionava assim: se o despaginado achasse que estava destinado a ter alguma coisa, fosse ela um título ou um casamento, ele tinha a chance de apresentar evidências disso. As evidências eram ridículas, como a direção em que o vento estava soprando durante o julgamento ou o padrão do canto dos pássaros empoleirados nas árvores próximas ao tribunal, mas, se o juiz sentisse que seu próprio destino era aceitá-las como prova, o contestador recebia aquilo que acreditava merecer.

Quando o império eviternense assumiu o controle do mundo, descobriu da pior forma possível que entregar certas tradições despaginadas ao esquecimento era uma má ideia. Feitiços poderosos, densos com magia branca e preta, mantinham a validade delas – festivais precisavam ser honrados, assim como as decisões de um juiz de Destino. A cláusula de Contestação de Destino, assim, permaneceu válida por quatrocentos anos mesmo que ela não fosse mais resolvida como antigamente. Não; homens de carne e osso não acreditavam no canto dos pássaros ou no sopro do vento, mas sim em aço e sangue derramado. A Contestação de Destino, em sua forma contemporânea, tornou-se um desafio de combate para decidir questões legais complicadas.

O Príncipe não aprendeu nada disso em seu ano de estudos no exterior, uma vez que escolas de memorização intermediária não permitiam a discussão de quaisquer temas vagamente despaginados, mas sim quando tinha nove anos e se sentiu obrigado a cuidar das feridas de um advogado que foi parar nas ruas depois de defender o cliente errado. O homem chamava-se Bernardo, e pagou pelos cuidados que recebeu com informações que um menino de rua comum julgaria inúteis.

Foi com Bernardo que ele aprendeu a influência que a Família Grená tinha em todas as questões jurídicas do império – eram uma Família de juízes, jurados e executores. Só eles seriam capazes de retirar o sobrenome de alguém tão consolidado na profissão quanto Bernardo e lançá-lo na sarjeta, e só eles colocariam mercenários à procura do homem pelas ruas. A última lição que o advogado ferido ensinou ao Príncipe antes de ser assassinado foi ficar longe de pessoas estranhas oferecendo doces em bairros pobres – os empregados de lady Grená usavam guloseimas para abduzir meninos bonitos e entregá-los à sua senhora. Tinha sido esse, afinal, o motivo de Bernardo ter caído em desgraça: defender judicialmente os pais de uma criança encontrada morta no dia seguinte a um dos famosos “banquetes de juventude” de Medeia Grená.

Velho demais para ser devorado, o Príncipe usou a fome disfarçada de afeição dela para autenticar a Contestação de Destino de William Marino. O duelo estava para começar mas, para o desespero do resto da Família, Júlio estava ocupado demais para ir assisti-lo.

— Vamos chegar atrasados — ralhou lorde Leonardo. — Se não quer sair até receber suas notícias, pelo menos peça para que ele adiante um pouco. Uma versão resumida, pois sim?

O pregoeiro pausou em meio ao discurso que fazia sobre o aumento das taxas de importação de vinho iberiano para olhar do lorde para o filho adotivo dele, que escutava atentamente de sua poltrona. De onde estava no salão de estar, Júlio conseguia ver Lancelot de braços cruzados, impaciente, no interior da carruagem da Família. Ignorando-o, assim como pediu para que o pregoeiro ignorasse a sugestão de lorde Leonardo, ele gesticulou para que o servidor público continuasse normalmente o seu relato sobre os acontecimentos recentes. O pai adotivo de Júlio suspirou, irritado, e cruzou os braços numa pose muito parecida com a de seu filho.

— ...não apenas o vinho, como também a lã e o gado, sofrerão aumentos devido à recente medida econômica para, segundo o rei, “recuperar o tempo perdido”. Ele se refere, claro, ao período de quase seis meses em que a passagem marítima para a costa iberiana foi bloqueada pelo que agora sabemos ter sido uma ninhada de krakens. — O pregoeiro fez uma pausa, aceitando um pouco da água que um criado de prontidão lhe ofereceu. — Crime organizado: chega a trinta e dois o número de mortes sem resolução nos Distritos do Porto e do Trabalho. Ainda que nenhuma declaração oficial tenha sido dada pela guarda capitalense, oficiais de envolvidos na investigação expressam receio de que esse seja o resultado de um conflito entre o sindicato do crime conhecido como Lobos do Mar e emissários estrangeiros de uma organização criminosa conhecida como Punhal Negro radicada na República de Tartária. Receosos e insatisfeitos com a ineficácia da guarda, moradores e comerciantes de ambos os distritos...

O Príncipe deixou de ouvir depois desse ponto, atirando uma moeda de ouro para as mãos hábeis do pregoeiro quando percebeu que este tinha parado de falar. O servidor agradeceu com uma mesura, recuperou o sino que depositara na mesa de centro do grande salão de estar e foi guiado pelo criado até o lado de fora. Quando ele passou pelo pátio, Lancelot praticamente gritou:

— Finalmente! — Colocou a cabeça grisalha na janela aberta da carruagem, reunindo as mãos em concha ao redor da boca na direção do interior da mansão. — Estamos saindo ou o quê?

Lorde Leonardo remexeu-se como se quisesse repetir a pergunta do filho, mas conteve-se pelo receio de ser novamente ignorado. Júlio registrou o movimento, assim como a gritaria do irmão adotivo, mas estava ocupado demais pensando. Trinta e dois mortos... Um aumento de onze em relação ao dia anterior. Se por um lado aquilo era bom, significando que a guerra continuava firme e os tartarianos continuavam ocupados demais para cobrar a dívida do Príncipe, por outro lado queria dizer que a situação em breve atrairia a atenção de autoridades bem menos suscetíveis a ignorá-la. Também lhe preocupava o fato de nenhum dos mortos no conflito ser estrangeiro. Os tartarianos estavam em sete; sete contra toda a Nova Soteros, e eles estavam vencendo. Júlio amaldiçoou a própria estupidez em se envolver com essa gente.

Ainda imerso em ruminações preocupadas, ele se levantou sem dizer palavra e seguiu para a carruagem. Lorde Leonardo o seguiu, indeciso entre expressar indignação pelo tempo perdido e alívio por finalmente estarem de saída, e assim que pai e filho adotivos se acomodaram nos bancos estofados da carruagem nova em folha, o cocheiro urgiu os cavalos adiante. A comitiva Saturnino chegou à arena com menos pompa do que o planejado, uma vez que os Grená perderam a paciência com Júlio e foram na frente em vez de esperá-lo, mas a visão da carruagem ladeada por mercenários à cavalo, tudo e todos nas cores alaranjadas da Família, atraiu moderada atenção dos nobres que ainda não tinham tomado seus assentos na arena. Júlio deixou que seu pai e Lancelot participassem do jogo social e, acompanhando uma desanimada Luciana, tomou seu lugar no camarote da Família. Sorrindo para si mesmo, ele viu quando um servo correu para avisar a William Marino que os Saturnino tinham chegado. William, apesar da irracionalidade por trás disso, lançou para Júlio um olhar aliviado de onde estava nas cercanias da arena.

Era um rapaz necessitado de autoconfiança, esse Marino deserdado. Enquanto ouvia as notícias inúteis do pregoeiro à espera da contagem de corpos atualizada, Júlio tinha nas fímbrias de sua consciência o divertimento de imaginar William se desesperando com seu atraso. Pouco importava para ele que Edmundo já estivesse na arena, completamente vestido com sua armadura negra e pronto para o duelo; pouco importava que fosse o duelista, e não ele próprio ou Júlio, o responsável pelo sucesso do plano deles; William parecia incapaz de se envolver com toda aquela situação sem o Príncipe por perto.

Não era frouxidão, uma vez que ele não tinha qualquer problema em lutar por si mesmo quando Júlio lhe falou da Contestação de Destino pela primeira vez. Era como se a caça aos noivos tivesse quebrado alguma coisa no interior dele, uma coisa responsável por lhe fazer acreditar que tudo fosse dar certo, e estar perto do homem que arruinara seus sonhos de casamento lhe devolvesse algum nível de certeza na vida. Júlio não gostava da ideia de isso ser verdade. Por mais que precisasse de William numa posição dependente no relacionamento deles, não o queria emocionalmente incapacitado. Ainda não, pelo menos.

Ao seu lado, a três assentos de distância, Luciana parecia não estar ali. O cabelo branco da jovem Saturnino se espalhara ainda mais pelo comprimento dos fios, sem dúvida por causa de todo o fracasso de sua tentativa de casamento, e ela parecia mais magra e azeda a cada dia. Recusava-se a comer, cedendo ao jejum apenas quando uma criada que fingia ser sua amiga lhe oferecia pães e queijo, e falava apenas quando seu pai lhe perguntava alguma coisa. Era aparente pela tensão em seus olhos que estar ali para assistir ao julgamento por combate do ex-noivo era uma espécie de humilhação, e Júlio podia ver que trazê-la ali prejudicaria alguns aspectos futuros de seus planos – mas o que se podia fazer? Aquele era a primeira Contestação de Destino em trinta anos, e não seria nada bonito para uma Família comparecer incompleta para a ocasião.

Apesar da chegada atrasada, o duelo em si demorou meia hora para começar. Pronunciamentos foram dados pelo Ministro da Justiça, um Grená que ainda tinha na pele as marcas dos banhos de sol que vinha tomando na piscina da Mansão Saturnino, e o Ministro da Guerra, que parecia animado com a perspectiva de um duelo daquelas proporções. Foi enquanto este discursava sobre a importância de demonstrações de força para as gerações mais jovens que lorde Leonardo finalmente tomou seu lugar no centro do camarote com Lancelot sentado à sua direita. Completamente esquecido do atraso que seu filho adotivo o fizera sofrer, ele sorria e cochichava com Lancelot à guisa de uma menina de quinze anos. Sem dúvida estivera cortejando uma viúva da família Eraquim; tinham marcado encontro na arena depois de Júlio os ter apresentado num baile, e era evidente pelo sorriso corado no rosto largo de Leonardo que o namoro ia bem.

— E agora, sem mais delongas — anunciou a voz amplificada do juiz de Destino, um rapaz Grená que fora apanhado na despensa da Mansão Saturnino com uma cozinheira —, apresentamos os duelistas de hoje: William, deserdado, e Anselmo Marino. Ao centro da arena, senhores.

Seguindo uma sugestão de Tomás, William usava o traje nas cores azuis de sua Família. A roupa apresentava visíveis sinais de desgaste, além de manchas de lama contraídos no dia da fuga frustrada com Luciana e, segundo o camareiro, atrairia a simpatia dos nobres. Ele provou-se certo quando uma onda de murmúrios compadecidos assinalou o momento em que William postou-se no centro da arena. Perto do pai, que vestia-se com toda a opulência de um lorde de sangue antigo, ele parecia trabalhador e simpático, digno de torcida em vez de pena. Ajudava que o rosto de Anselmo Marino fosse uma careta nariguda de irritação – ele deixara claro que contestaria a decisão do Ministério de Justiça aceitar a Contestação de Destino, e em seu rosto trazia muito pouco além de desdém por toda a cerimônia.

— Senhor William — o juiz vociferou de seu estrado, ajustando a toga amarela e verde ao redor do corpo. — É o senhor quem luta pela contestação de seu destino?

— Não, meritíssimo — William gesticulou teatralmente para o soldado em armadura negra de pé na extremidade sul da arena. — Quem luta é Edmundo Nebrim, primeiro de seu nome.

Foi como se alguém tivesse gritado uma obscenidade achando que o barulho das muitas conversas paralelas fosse abafar o ato. Silêncio varreu as arquibancadas, espalhando-se como uma onda gélida de descrença pelos camarotes. Júlio observou, divertindo-se, o rosto de lorde Luciano contorcer-se num susto franco. Lancelot praguejou, soando mais animado que surpreso.

— A Família Nebrim não existe mais — o Príncipe comentou olhando para Luciana, que parecia francamente confusa com a reação geral. — Ou, pelo menos, não deveria existir.

— O sobrenome deles não foi revogado? — Lancelot perguntou. Olhava para a armadura negra, traços de reconhecimento em suas feições ao examinar detalhes característicos nas manoplas e grevas. — Foi o que ouvi, digo. Eles não são mais nobres, certo?

— Na verdade, sim, eles são — Luciano levantou-se de sua poltrona para observar melhor do parapeito do camarote. — Os Nebrim nunca foram oficialmente destituídos de sua nobreza. Ninguém achou que precisasse, já que estavam todos mortos. — Ele juntou as sobrancelhas. — Parece que estavam errados.

Comentários similares se espalhavam pelas arquibancadas abaixo, e em segundos o silêncio perplexo foi demolido por uma onda desordenada de conversas. O juiz pediu ordem, ele próprio parecendo atônito, e foi só quando o barulho diminuiu que ele tomou a única atitude possível: fingir que nada tinha acontecido.

— Senhor Marino — ele elevou a voz para abafar os últimos resquícios de falatório. — É o senhor quem luta para reafirmar seu destino?

— Não, senhor — Anselmo já não tinha tanto do desdém em seu rosto antipático; ele olhava do filho para o cavaleiro negro com uma expressão perigosamente próxima à incerteza. — Quem luta é Fausto, mercenário que serve sob meu sobrenome.

— Pois bem — o juiz sinalizou para que ambos deixassem a arena ao mesmo tempo em que pediu para que Edmundo e Fausto tomassem seus respectivos lugares. — Pelo poder investido a mim como representante da lei falada, consagro esse duelo como uma representação da vontade do Destino. Lutem bem.

Nem bem o juiz tinha terminado de falar quando Edmundo desembainhou sua espada e partiu Fausto no meio com ela. Quem não estava prestando atenção, pensando que os lutadores perderiam algum tempo testando os limites um do outro antes de começarem, não viu o golpe; quem estava atento, principalmente por um dos lutadores ser um Nebrim, não foi capaz de acreditar na velocidade com que ele aconteceu. O braço direito de Edmundo moveu-se como um pistão, retirando a lâmina da bainha e passando-a através da barriga do adversário em ato contínuo, e para os mais distraídos foi difícil dizer se ele tinha realmente se movido. Os ruídos desesperados emitidos por Fausto em seus momentos finais foram o único som em toda a arena por muito tempo antes de o juiz, que ficara paralisado no ato de se sentar, retomar a palavra:

— O Destino se pronunciou — ele apontou para Edmundo, que se curvou como mandava o protocolo. — Que hoje marque o dia em que William Marino recuperou seu sobrenome e se tornou o líder de sua Família. Pela graça do imperador e...

O resto foi engolido por uma onda de gritaria – protestos, principalmente, mas também algumas risadas maravilhadas como a de Lancelot. De seu canto na arena, William gritava com uma felicidade que beirava a insanidade. Do lado oposto, todo o contingente dos Marino tentava subir pelas escadas que levavam até o tablado do juiz para falar com ele. Júlio, finalmente pondo de lado a menor de suas dúvidas quanto ao funcionamento do braço despaginado de Edmundo, conteve uma gargalhada e limitou-se a pedir uma bebida para um servo próximo. Seus pensamentos foram para o desfile vindouro, a próxima etapa de seu plano, ao mesmo tempo em que Brás tentava esquecer do mesmo evento.

Trabalhar tanto tempo depois de a loucura começar a se instalar provou-se menos efetivo do que o normal, por isso o acadêmico se entregou ao esforço físico com tanto desprendimento que só percebeu o tempo passar quando o último dos raios de sol desapareceu no horizonte. Ele reencontrou-se com Jão, o sapateiro, e lhe ajudou a remendar botas militares e sandálias de couro; logo em sequência ajudou a sovar a massa para o pão da tarde com Mina; almoçou com Gilberto, o pescador, enquanto revezavam entre a vara e rede; sua tarde foi um completo borrão de madeira reduzida a pó e pregos sendo martelados na companhia de Tiago. Mesmo despedindo-se de cada um deles no momento em que o trabalho acabava, conversar com seus amigos completamente analfabetos foi como um bálsamo para as marcas de queimado deixadas pela loucura. O trabalho criou bolhas em suas mãos, mas ajudou a firmá-las onde antes o medo as fazia tremer.

Quando a noite caiu, Brás aceitou tomar um cafezinho com Tiago. Eles estiraram as pernas em bancos esculpidos a partir de tocos de árvore dispostos na calçada da marcenaria e tiveram suas xícaras reabastecidas por Sara, a esposa do artesão, antes que ficassem completamente vazias. O calor da bebida, apesar de seu efeito energético, acalmou Brás. Ele sentiu a brisa crepuscular trazer um pouco do cheiro do oceano e surpreendeu-se ao perceber que ela já não o fazia pensar no demônio marítimo que o devorara. Tiago conversava sobre tudo e nada, e dentro em pouco o acadêmico se viu entabulando um diálogo sobre sonhos estranhos. Brás mal teria registrado sobre o que falavam se não fosse pelo momento em que Sara, numa de suas idas e vindas da cozinha, comentou que tinha sonhado com algo parecido.

O treinamento recebido na Academia se enraizava na alma da pessoa, e era suficiente para fazer com que ela reagisse a ele mesmo sem perceber. No momento em que Sara falou, a mente previamente relaxada de Brás reconfigurou-se num estado de alerta similar ao de combate:

— Como assim, “algo parecido”?

Sara surpreendeu-se com o tom rígido na voz do bibliotecário.

— Também sonhei com um bicho que nem o que o Tiago descreveu — ela respondeu, incerta do que a pergunta se referia. — Parecia um macaco, mas tinha quatro braços e era coberto de espinhos. O pelo era vermelho... Não, marrom. Acobreado. Acho que ele tinha asas também. Asas de barata.

— E quando foi isso?

— Na mesma noite — Sara pareceu, então, perceber a estranheza daquilo. — Pelo amor.

Brás agradeceu pelo café, puxou o distintivo do bolso de suas roupas civis e deu uma volta pelo quarteirão. Sempre que via alguém com aparência cansada ou assustada, mostrava o pedaço de metal gravado com o A da Academia e fazia algumas perguntas. Não demorou até perceber que todos naquela região do Não-Distrito tinham tido o mesmo sonho ao mesmo tempo – três noites atrás.

Mapeando as entrevistas em sua mente, Brás delimitou um raio de pessoas afetadas pelo sonho e se dirigiu para onde pensava ser o epicentro do fenômeno: as ruínas do que parecia ter sido uma mansão quatrocentos anos antes. Não era incomum que ecos dos antigos moradores despaginados do Não-Distrito sobrevivessem nos sonhos dos que viviam por perto, mas o instinto acadêmico de Brás dizia que aquele não era o caso. “Primata com quatro braços e asas de barata” não soava como a descrição do tipo de despaginado rico que costumava morar por ali. O bibliotecário fez algumas rondas pelas ruínas, chegando a penetrar o interior delas, antes de decidir que a busca precisava continuar no acervo de livros da Academia.

Pouco antes de Brás dar as costas para as ruínas, porém, ele captou um vislumbre de dourado. Ele pôs-se em posição de luta, pensando que o que vira era o tal macaco de quatro braços mas, quando finalmente encontrou o dono da sombra que projetava-se dos telhados, viu que ele não passava de um menino loiro. Apesar das roupas evidentemente caras, ele se movia com a agilidade confiante de um dos muitos meninos de rua que usavam os telhados como via expressa. Brás o acompanhou com os olhos, sempre fascinado com o modo como os órfãos do Não-Distrito cobriam distâncias nas alturas, até que ele desapareceu em meio aos ângulos de um telhado distante com uma manobra perigosa.

[Você também pode acompanhar essa história no Nyah! Fanfiction, no Wattpad e no Spirit Fanfics]

Comentários

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  4. Por um momento fiquei com medo de você por você gostar do Yohan.

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  5. As vezes as histórias dizem muito sobre como está a nossa mente, e eu estou depressiva. Sinto muito por te assustar

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  6. Olha Arrogante, sei que você me odeia, eu estava mal emocionalmente, mas eu to preocupada com você. Assim, a última notícia que tive sua você queria me estrucidar. E acho que foi em fevereiro. Mas eu não tenho mais nenhuma notícia sua, você nem atualiza principe das letras direito, eu nem sabia que tava no wattpad. Cadê os seus leitores cobrando atualização? Você ta bem?

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  8. Você pode até virar pra mim e falar: Por sua culpa eu sai do Nyah! E eu não tive o retorno dos mesmos comentários. EU VIRO E FALO: POR SUA CULPA EU DECIDI FAZER UMA NOVA FACULDADE. POR SUA CULPA EU DECIDI ACOMPANHAR MULHER MARAVILHA E SUPERMAN. POR SUA CULPA EU PAREI DE FALAR COM PESSOAS COM MENOS DE 18 ANOS NA INTERNET.

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  11. https://fanfiction.com.br/historia/814254/Avant_La_Lettre/ (olha é assim que vejo a sua obra)

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  12. Eu estou estudando o seu trabalho, lembro que você disse que havia se inspirado em Máquiavel e estava procurando por um arquétipo de guerreiro.

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  13. Você elogiou tanto a minha inteligência que eu me sinto forçada a estudar, o Laurentino (Você disse várias vezes que não era ele) me xinga, diz que cago pelos dedos. E eu tento estudar Maquiavel.

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  16. Por exemplo Grená é uma pedra, e é a pedra de granada, ela é vermelha (Existe realmente existe uma pedra preciosa chamada granada). E também solta fumaça quando explode

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  23. Você se fingiu de burro e PAROU DE ESCREVER! você fingiu não saber de nada NADA.

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  24. amélio Arnor Espadeira não é papa, não acho algumas coisas sobre outras pessoas

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  31. Sim, acho que você usou Velma para não usar Daphne

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  40. poxa, tem um amalion em tolkien. mas o arnor me lembra muito rio arno, fiquei triste agora. Até achei um arnor nas obras de tolkien

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  41. TUDO É STALKING PRA VOCÊS TUDO. A PESSOA nÂO PODE TE ACHAR UM ESCRITOR FANTÀSTICO PODE TE ADMIRAR COMO SER HUMANO MAS AI DERREPENTE DA UMA BRIGA E TUDO VIRA STALKING E PERSEGUIÇÃO que saco da até vontade de excluir TUDO

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  42. Ai a pessoa VIRA E FALA A É ASSÉDIO AI EU FICO ASSIM SE VOCÊ SE SENTE ABUSADO SEXUALMENTE OU DE QUALQUER OUtRA FORMA ME PERDOA PORQUE EU ODEIO ME SENTIR ABUSADA EU ODEIO ME SENTIR ABUSADA E VOCÊS ME ACUSAM DISSO. E EU ME MATO

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  43. Bloquear um contato é como assinar uma sentença de morte para um relacionamento. A pessoa que é bloqueada é retirada do convívio, como se tivesse sido condenada a um exílio emocional. A comunicação, que antes pulsava com vida e interações, é abruptamente cortada, como se a conexão fosse desligada em um instante. OU SEJA TODO MUNDO QUE ME BLOQUEIA NA MINHA CABEÇA DIZ ISSO DAQUI: PARABÈNS URSULA PODE SE MATAR

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  44. E o fato do Alec, da Ana, do Luiz e outras pessoas começarem a excluir conteúdos em que eu participo e eu me importo com eles e eles seguem a vida normalmente e eu sigo preocupada com eles. e eu sigo pensando neles e eu fico doente e não melhoro da depressão me faz cogitar eutanasia. e o maquiavel, exatamente como no livro de que você leu disse: as pessoas tendem ao conflito

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  45. E eu fico mal, porque minha mãe chega em casa faz comida. E eu não tenho tomado banho. Meu pai vira e fala: Você não está comendo a comida porque não tem amor no coração. E você quer machucar a gente. E aí eu de repente comer vira uma questão de ser uma pessoa boa ou má ou ter bom coração. E aí meu pai vira e fala: Você ta esperando a gente morrer. E eu fico assim; Eu to querendo ir antes. Minha mãe: Eu vou morrer de desgosto se você for antes. E eu já fico assim: Ah eu não tenho amor no coração porque não como a comida '-' e eu não tomo banho porque não tenho amor no coração '-'' e vocês fazem comida e me forçam a comer

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  46. Acho que meus antidepressivos vão aumentar de novo, porque de repente eu ser uma pessoa boa ou má depende de eu estar comendo e eu não entendo mais a sociedade

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  47. Então eu peço ajuda pra um enfermeiro do site, excluem meu comentário. Com esse conflito todo de ninguém querer voltar a falar comigo ou de não me querer de volta na vida eu só acho que são todos a favor da pena de morte

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  48. Mas como as pessoas do nyah, vc ou os outros não me procuram eu fico assim: eu devia ta morta desde 2019 teria me poupado de muita coisa e vcs tbm

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  49. Como essa visão da sua história é minha, eu vou fazer uma história com essa visão. Achei bem legal. i

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  50. Oi Arrogante, tudo bem? Por favor não me acuse de Stalking, ou de Assédio. Eu to aqui dizendo que eu to vivendo basicamente porque você criou esse livro. E porque você me chamou de inteligente, eu falei com o Luiz Henrique e disse que o livro dele me fazia estudar e feliz, ele me acusa de stalking. Por favor não me acuse. O Livro Em Busca da Felicidade da Mamãe do Alec Silva não me faz mais querer ficar viva. O Alec Silva me faz querer ficar morta. Então eu to aqui porque basicamente eu te conheci, conheci o seu livro e to vivendo por causa dele. desculpa

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  51. cara eu to ficando cansada, eu erro com as pessoas e elas não perdoam. elas não voltam eu to disposta a me matar. só que ta ficando dificil. a amanda a minha amiga não me da atenção pessoalmente, ela não me chama pra conversar, minha outra amiga não me manda mensagem. é só eu que mando. meu irmão não fala comigo. Minha mãe vira e fala: Se você morrer antes de mim eu vou morrer de desgosto. MAS LITERALMENTE SÒ ELES DOIS SE IMPORTAM COMIGO, NEM O MEU IRMÂO CONVERSA COMIGO. E EU NÂO QUERO PASSAR A ETERNIDDE DA MINHA VIDA SOZINHA ARREPENDIDA POR TER PERDIDO VARIAS PESSOAS> EU QUERO MORRER ANTES>

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  52. Enfim, toda vez que me falam: Stalker, Perseguição, eu fico pensando no BTK. Mas acho que as pessoas não sabem quem é o BTK. O Btk é um cara que ele perseguia as pessoas, tipo ele via a casa delas, apagava a linha de telefone, e matava a pessoa '

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  53. sei lá, todo mundo que me bloqueia não vem perguntar como eu to me sentindo ou sei lá me quer morta, sabe por que? Porque assim, quando você bloqueia alguém você não tem mais notícia da pessoa. Aí fico pensando: Se eu falo que vou me matar é chantagem, se eu tento resolver a situação não quer. Se eu vou atrás pra conversar de novo é stalking. puxa. fico sofrendo. infelizmente viva

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  54. sabe uma coisa legal? é que judas se matou por arrependimento, então suicídio é liberado quando ta arrependido

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  55. eutanásia é legalizada em portugal, posso tentar lá. as vezes liberam pra caso psiquiatrico, não vou ter melhora mesmo. meus problemas são com outras pessoas as pessoas não tão nem aí e é isso. sei lá quem sabe eu acerto o remédio no brasil mesmo e morro.

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  56. Eu ainda estou muito chateada com a briga e com o fato de vc não ter me perdoado por te chamar de laurentino. desculpa. eu realmente estou triste. mas acho que você é a minha pessoa conforto. só espero que diferente da Ana você não me julgue ou me chame de maluca. É diferente de psicólogo

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  57. Na minha internação por suicídio (Nas duas, porque não pude me desculpar com você por tudo de ruim que aconteceu inclusive) eu conheci uma moça chamada jéssica. Eu tava tão mal, que te procurei em toda a parte, falava com estranhos na rua, perguntando se eram você. E me perguntava se você era o Alec Silva. Eu perguntei pra jéssica se ela o Alec Silva Trans porque eu tinha que me desculpar com ele/você. E disse que se ela fosse ele, eu a amaria mesmo assim. Eu escrevi bilhetinhos pra ela no mesmo quarto. Orei pela moça e senhora a noite, me ajoelhava ao pé da cama de internação das duas e orava.

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  58. Foi uma das internações mais difíceis, porque fiquei muito agressiva, mas acho que foi porque envolveu o assunto dos nudes, uma perda emocional muito grande, outra perda... e outra perda. Eu me senti perseguida por várias contas do nyah e eu sabia quem eram as identidades. E meus pais ficaram agressivos. Eles perderam a paciencia e eu não queria mais tomar os remédiso, só queria me sentir segura. Joguei água no rosto do meu pai, ele bateu no meu rosto. E eu continuava mal, mas dessa vez eu me sentia agredida e sem alguém em quem confiar, minha mãe perdia a paciência e me ameaçava de murro. e eu ficava com medo e ligava para a polícia.

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  59. E eu não sabia quem eram as identidades*

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  60. No final a amiga me acusou de psicose diária e isso me da muita dor e eu voltaria pra ela mesmo assim. Mesmo esse não sendo o meu diagnóstico, disse que era maluca e etc. e eu falei coisas ruins dela tbm. a diferença é que ela é influencer. e eu acho um super preconceito e acho super ruim uma mulher chamar outra mulher de maluca. e não, não dou golpe. eu estava com o remédio ERRADO psiquiatrico e estava sem andar, eu achei que ia morrer. mas descobriram que era o remédio PSIQUIATRICO de depressão que me fazia ficar sem andar por isso não fiz a vaquinha e NEM PRECISEI, NA EPOCA EU SÓ FICAVA COM MEDO, tava sem andar.

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  61. Na minha internação Jéssica levou um radinho escondido, ganhei um também, mas como tinha uma mensagem de uma câmera com cocô (traduzi como Scat e é quase a mesma pronuncia que Sketch) na caixa com uma câmera achei que estava sofrendo Sketch (ou seja tinha alguém me filmando e vendo e eu conversava, no final destrui a caixa de música, não tinha ninguém me filmando). Na playlist do pendrive tinha algumas músicas, uma que o blueballs indicou como the backstreet boys e muitas músicas do stromae porque me lembravam você. algumas do elvis. Essa sensação de estar sendo filmada sim também veio do trauma do nude, mas também porque o meu pai tinha pego a mania de me filmar chorando e estressada.

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  62. as conversas com o cuspidor de fatos usando cigarros me fez querer fumar cigarro, e tipo de verdade, mas eu sempre me apeguei a Gisele Bundchen, que é uma moça que não usou e é mais natural. E sim, aquela amiga que usou maconha em 2015 também me influciava a coisas ruins.

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  70. eu só fui atrás das suas amigas para conversar pra você me desculpar se você não se desculpa com seus amigos o problema é seu. porque eu estou pensando em morrer

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  71. Arrogante, eu vou morrer. Você vai voltar diferente, talvez casado, ou talvez nem volte e eu não. Eu quero morrer.

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