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Domingo da Creepypasta



Com o terror de uma nova semana de trabalho se iniciando, nada melhor do que indulgenciar as mais macabras fantasias. Para ajudar você com isso, traduzi uma das primeiras creepypastas que li. Para quem não sabe, creepypasta é o nome que se dá a lendas urbanas amplamente difundidas na internet. O nome vem de creepy, "arrepiante" em inglês, e pasta, que é uma referência ao ato de copiar e colar ("copy and paste"). Elas podem ser encontradas em diversos lugares, desde obscuros fóruns online até posts compartilhados em massa através das redes sociais. A história de hoje em especial eu descobri no 4Chan e, como é o caso de muitas das histórias de lá, não existe um título "oficial" para ela. Por isso, eu simplesmente traduzi o assunto da thread em que ela foi postada como título.

DISCLAIMER: se você é ou conhece quem é o autor desta história e acredita que meu uso dela aqui não é justo, entre em contato. Eu não sei em que pé anda a tradução desse tipo de coisa aqui no Brasil, então não sei se é uma tradução inédita ou não, mas o fato é que me diverti muito relendo e transcrevendo essa historinha para o nosso idioma.

"Entidades com que Eu e Meus Vizinhos Lidamos em 2005

Me mudei para uma casa no interior do sul da Austrália em 2005. Quase todas as pessoas vivendo na nossa rua tinha menos de cinco anos morando lá, tirando um casal de idosos que vivia na esquina. Esse casal tinha mais de quarenta anos naquela rua, e diziam estar acostumados às coisas estranhas que costumavam acontecer nela; coisas que, segundo eles, só começaram a acontecer no início dos anos 90.

A primeira experiência que eu tive em primeira mão aconteceu uma semana depois de a minha família se mudar para lá. Ouvi um zumbido baixo vindo da janela do meu quarto, e quando eu espiei através dela vi uma figura alta e escura com braços longos e aparência esticada, sem rosto e ligeiramente transparente. A coisa estava com as costas na parede da garagem, e era tão grande que eu demorei cinco segundos para entender completamente para o que eu estava olhando. Quando ela moveu a cabeça na minha direção, eu fugi da janela e corri até meus pais. Meu pai foi conferir a garagem e não viu nada lá. A experiência me marcou tanto que eu cheguei a desenhar a criatura na época:

Nota: não consegui achar a foto original do desenho numa qualidade boa, e por isso usei uma ferramenta de edição online com IA para aumentar o tamanho se perder a resolução. O desenho original pode ser visto na thread original, que está no final deste post.

Não demorou até que eu fizesse amizade com os vizinhos (éramos todos adolescentes) e eles me contassem histórias. Um desses meus amigos era descendente de aborígenes, e nosso grupo passava muito tempo em visitas ao avô dele. O avô chamava as entidades de maiyalmula, 'desconhecido', e nos contou que o povo aborígene naquela área as vinha enfrentando desde muito antes de os europeus chegarem. A tradição dizia que elas não eram 'da terra' (no sentido de não pertencerem à região ou de não serem nativos dela) e que elas tinham o hábito de roubar crianças para devorá-las.

O avô daquele meu amigo detalhou um ritual muito antigo que os aborígenes tinham usado para banir as entidades para além de um riacho próximo, e explicou que tal ritual perdera o efeito quando o riacho secou. A cidade em que eu vivia na época, descobri mais tarde, tinha sido construída no lugar de um povoado aborígene; a tribo em questão não era nômade, e vivera naquela pequena área do interior por mais de mil anos.

Um dia, eu e meus amigos estávamos jogando críquete na planície desértica que ficava entre a rodovia e a minha casa. Quando o sol se pôs e nós começamos a guardar nossas coisas, alguém percebeu um grupo de pessoas se aproximando da estrada pelo outro lado. Quanto mais perto esse grupo chegava, mais detalhes dava para ver: eram completamente pretas, anormalmente altas e flutuavam em vez de andar. Conforme se aproximavam, um zumbido baixo podia ser ouvido no limiar da audição. Nós corremos até a minha casa e descrevemos o grupo aos meus pais, mas eles não nos levaram a sério. Meu pai, a quem eu particularmente incomodei para que acreditasse em mim, se dispôs a ir para a estrada ver as pessoas-sombra por si mesmo. Ele foi de moto, e na ida e volta gastou mais ou menos nove minutos. Quando tirou o capacete, parecia apavorado. Disse a mim que viu as entidades, mas nada além disso. Depois disso, sempre que eu tentava falar do assunto com ele, a conversa mudava de assunto bruscamente.

 

Voltando de uma festa com meus amigos, nós vimos duas entidades pequenas sentadas nos tocos de árvore de um terreno baldio. Elas simplesmente nos encararam, imóveis. Uma era maior que a outra, e tudo o que ouvimos delas foi aquele zumbido baixo. Todos no nosso grupo estavam meio chapados, e acabamos simplesmente rindo da visão até percebermos não ser possível que todos estivessem vendo a mesma coisa. Um dos meus amigos deu um passo à frente na direção das entidades, e assim que seu pé assentou no chão um rosnado profundo, um som que nunca ouvi antes, se espalhou pelo terreno baldio como o estampido de uma bomba. Pra encurtar a história, todos nós voltamos correndo para nossas respectivas casas.

Essa situação é digna de nota porque, ao contrário das outras entidades que eu já tinha visto (e a essa altura eu via várias delas toda noite), as que estavam no terreno baldio eram completamente físicas, sem a menor transparência nas extremidades. O formato delas lembrava o de um bebê, e a cabeça não tinha um pescoço para separá-la do peito.

 

O evento seguinte foi quando as coisas começaram a esquentar. Um grupo de jovens, nenhum deles amigo meu, levava motos off-road­ até depois do riacho para correr no deserto e numa ocasião em particular eles simplesmente não voltaram. Nossos vizinhos não acharam que nada de ruim tinha acontecido, já que se perder no deserto não era muito difícil, e eles só foram encontrados uma semana depois – uma semana sem comida nem água no causticante deserto australiano. O que me assustou nessa situação foi o que o irmão menor de um dos desaparecidos, que me era conhecido, contou para mim.

Ele me disse que o irmão viu uma luz no deserto, e que essa luz atraiu todo o grupo de motoqueiros quase que de uma forma hipnótica. Eles seguiram essa luz durante toda essa semana, e não importava a velocidade com que andavam ela parecia nunca estar mais próxima. O irmão do meu conhecido tinha certeza que, se o fazendeiro que os encontrou não os tivesse desperto do transe, eles teriam continuado atrás da luz até morrer.

 

Minha mãe, cansada de me ver assustado o tempo todo, ligou para uma irmã que morava em Adelaide e a convidou para passar uns dias com a gente. Essa minha tia é sensitiva, e assim que chegou na casa pediu pra que ninguém lhe contasse o que vinha acontecendo por ali. Ela deixou as malas no quarto de hóspedes e saiu para um passeio, avisando que nos contaria o que viu e que assim poderíamos comparar com o que eu tinha visto. Ela voltou com a mesma expressão de pavor que meu pai tinha no rosto quando viu as entidades pela primeira vez.

As coisas, minha tia disse, não eram como nenhuma outra entidade que ela já tivesse tido contato. Durante seu passeio, ela disse também ter visto o espírito de uma velha aborígene. A velha contou que a tribo dela se formara separando-se da tribo Tharawal, e que viera parar na região que acabaria por se tornar a cidade por tentar fugir dos maiyalmula. Minha tia então teve visões terríveis das entidades devorando crianças aborígenes. O velha contou que, para afugentar os maiyalmula, ela se afogou nas águas do riacho num ritual para que seu espírito os afugentasse. O que desfez o ritual, minha tia descobriu, não foi o riacho secar, mas sim quando construíram uma calçada com formato de pirâmide por onde as entidades estavam passando.

O espírito da velha guiou minha tia até uma descoberta muito mais aterrorizante: depois de devorar as criancinhas, as entidades as traziam de volta como serviçais. Esses serviçais, segundo minha tia, são completamente físicos e vivem no deserto, vindo até a cidade apenas para comer. A velha disse que as criaturas são inofensivas em si mesmas, e que só ficavam de olho nas pessoas a pedido dos maiyamula.

Minha tia achou essa explicação confusa e inquiriu o espírito: para que os serviçais? Foi explicado para ela que o único intento das entidades era causar dor e sofrimento. Elas não só alcançavam isso através da morte de crianças, mas também por estupro de homens e mulheres, abortos espontâneos, acidentes e mortes por doença/idade avançada. O foco das entidades parece ser a cidade devido aos descendentes da tribo que ainda vivem nela. Minha tia chegou à conclusão de que os maiyamula não são espíritos, e sim algum tipo de alienígena.

Depois de ouvir isso, meus pais colocaram a casa à venda e começaram a se preparar pra ir embora. Dois dias antes de nos mudarmos, eu fui passear de moto pelo deserto uma última vez. Enquanto pilotava, percebi essa pedra à beira do caminho. Ela me chamou a atenção por causa das marcas que a cobriam. Eu não sei se ela tem algo a ver com o que estava acontecendo na cidade, e sei com certeza que as inscrições nela não são aborígenes. Acabei levando a pedra comigo. Aqui está uma foto dela."

Pode parecer anticlimático, mas é assim que a história acaba. Um pouco depois na thread original, um Anon perguntou se o cara que contou a história tinha uma foto dos bichos. Ele não tinha, mas um amigo que ainda morava na cidade enviou uma foto tirada depois de ele ter se mudado:

Thread original


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