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Príncipe das Letras — Capítulo Um — Caçador de Noivos

 


Ninguém sabia o nome do menino, e por isso o chamavam de Príncipe. No que tangia à aparência dele, o nome era apropriado: cabelos loiros, olhos cristalinos brilhando em tons indefinidos e, mesmo com a pele alva coberta por cicatrizes e roupas tipicamente mendicantes, havia algo de realeza na forma com que ele se portava. Príncipe era um bom nome porque enquanto outras crianças de rua fugiam da guarda capitalense, gritando e rindo pouco antes de chorar por seus braços partidos e espólios apreendidos, o menino aprendera cedo a nunca correr e a transmitir tranquilidade mesmo com um cassetete indo e voltando de sua nuca e um coturno prendendo-o ao chão. Ele também aprendera a observar os ladrões mais velhos, a agradá-los e elogiá-los sempre que podia, e a permanecer num cômodo quando os adultos pediam que as crianças o esvaziassem. Não demorou até que o apelido deixasse de ser usado com o tom acusatório com que todos os pobres de Nova Soteros reservavam aos nobres e comerciantes ricos, substituído por um ar de deferência suavemente contornado por medo. O Príncipe da Favela chegou aos catorze anos gerindo duas operações de contrabando no porto, e o sucesso delas lhe comprou um sobrenome.

À época em que Príncipe subia aos saltos a escadaria do poder, a Família Saturnino era uma sombra do que costumava ser. Prestigiosa só no nome, a relevância dela era proporcional ao quão vivas eram as memórias que o grande público tinha da Guerra de Expulsão – que a essa altura figurava apenas nos livros de História, nas exposições de museu e nos discursos políticos a respeito da invasão epidêmica de despaginados. Embora fosse seguro dizer que todo imperial que se prezasse sabia quem tinha sido Luís Martín Saturnino, só a quem a Família devia dinheiro sabia o nome de Leonardo Adriano Saturnino. Física e mentalmente doente devido à crescente certeza de que o legado de seus antepassados se perderia sob o seu comando, Leonardo só faltou beijar os pés do Príncipe quando este propôs ser adotado por aquele e através da assimilação infundir o prestígio da Família Saturnino com todo o dinheiro da emergente organização criminosa do porto. Príncipe, oficialmente batizado aos quinze anos depois de longos dez meses de estudos no exterior, assumiu o nome de Júlio Augusto Saturnino. Sua festa de batizado foi o primeiro grande baile financiado pelos Saturnino em mais de quinze anos, e por isso não foi pouca a fofoca resultante quando rumores sobre a procedência do jovem rapaz se espalharam por toda a cidade. Felizmente para Leonardo, nenhum rumor parecia discutir de onde vinha o dinheiro que surgiu abarrotando as contas da Família e por isso a fofoca foi encorajada como uma espécie de propaganda gratuita para o anúncio do retorno dos Saturnino aos altos estratos sociais.

Apesar do estardalhaço do baile, dos tendenciosos anúncios feitos aos gritos pelos pregoeiros públicos a respeito do assunto e das visitas do cobrador imperial em pessoa para averiguar a situação fiscal da recém-renascida fortuna, os efeitos da chegada de Júlio à Família foram mais sentidos dentro do que fora. O maior ponto de contenda era entre Leonardo e sua filha mais velha, Luciana, cujo casamento foi cancelado no dia seguinte ao retorno de Júlio. Leonardo, que arranjara o casamento três anos antes e nunca se conformara com o fato de a sua queridinha estar recebendo o sobrenome do marido e não o contrário, se viu na capacidade de fazer exigências depois de o dinheiro do Príncipe ter sido muito bem aplicado numa nova leva de mercenários para assegurar os interesses da Família. O noivo, que reciprocava os sentimentos que Luciana tinha por ele, mostrou-se disposto a contrair o sobrenome da futura esposa se isso significasse manter o casório nos trilhos; o pai do noivo, um homem muito atento ao que aquela mudança nas cláusulas significava, deserdou o filho. Leonardo acreditava firmemente que um nobre sem herança não serviria como partido para sua filha, e por isso cancelou o casamento em resposta.

Luciana, que vira a decisão se aproximando desde que recebera a notícia da deserdação, agira rápido.

— Fugir com um plebeu — Leonardo rugia pelos corredores, avançando em meio aos trabalhadores ocupados com a reforma da mansão enquanto vestia-se com a ajuda do camareiro. — Onde foi que eu errei, Tomás? Correções demais? Amor de menos? Por que meu tesouro me odeia tanto?

— Tecnicamente, senhor — Tomás, que era o único criado que não fora substituído pela influência do Príncipe devido ao seu lugar de honra no coração do patrão, fornecia as próximas peças de roupa conforme Leonardo terminava de se vestir com as anteriores —, lorde Marino é um nobre.

— Aquele fedelho não merece ser chamado assim — o patriarca da Família Saturnino calçava a bota de equitação enquanto pulava num pé só. Um pedreiro adiantou-se para tirar do caminho um carrinho de mão repleto de blocos antes que o dono da casa tropeçasse neles. Leonardo mal percebeu o gesto, mas Tomás agradeceu ao operário com um olhar de aprovação. — Era um teste! Um teste para ver se o espírito de nobreza permanecia no rapaz mesmo sem a influência de seu pai. Ele falhou miseravelmente. Por que Lucinha não vê que eu estava tentando salvá-la daquele tratante? Só de imaginar aquele... Aquele... Tomás, você vai atestar que a virgindade do meu tesouro foi retirada ilegalmente, não vai?

— Minha palavra não vale nada perante um julgamento de Família, senhor.

— Vai, sim — Leonardo prosseguiu, os olhos azuis esbanjando desvairo enquanto sua boca movia-se compulsivamente. — Você vai dizer a eles que minha Luciana foi violada, e que por isso ela deve ser considerada virgem para seu próximo casamento. Como ela pensa que vai casar com o rompimento da... — Ele viu o segundo filho de pé no pátio, já completamente vestido na cor da Família e à postos para a caçada apesar da expressão sonolenta no rosto, e apontou o dedo para ele imperiosamente. — Lancelot! O que está esperando aí? Vá chamar seu irmão! — O lorde Saturnino olhou ao redor, filtrando a presença dos pedreiros e carpinteiros trabalhando na reconstrução dos ladrilhos do jardim para ter certeza de que Júlio não estava entre eles. — Onde infernos está aquele menino? Tomás, você...?

— Mestre Júlio Augusto foi desperto de sua cama e informado da fuga da irmã conforme o ordenado — o camareiro terminou de ajustar a sobrecasaca grossa, bordada com os quatro matizes de laranja que formavam o brasão de armas dos Saturnino, em volta do corpo outrora musculoso do patrão. Nenhum dos quatro alfaiates contratados pelo Príncipe para renovar os guarda-roupas da Família haviam terminado o serviço, e por isso a sobrecasaca assentou justa demais ao ser fechada por sobre a barriga protuberante de Leonardo. Tomás ainda estava pensando em como disfarçar aquilo melhor quando adicionou: — Ele parecia bem desperto quando eu o deixei, senhor. Posso ir chamá-lo no lugar do patrão Lancelot.

— Ninguém vai chamar o favelado — Lancelot interpôs, juntando-se ao pai na marcha até os estábulos. Andando juntos, era notável a semelhança: a mesma cor dos olhos, o mesmo queixo perfeitamente delineado e o mesmo passo firme, ágil e calculado de esgrimista experiente. A tão falada descoloração prematura que se abatia sobre os cabelos dos Saturnino já conquistara mais da metade da cabelereira rebelde de Lancelot, adicionando uma outra camada de semelhança entre ela e o perfeitamente cortado cabelo cor-de-neve do pai. — Isso é um assunto de Família. Ele não merece participar disso.

— Não seja ridículo — Leonardo ralhou, interrompendo o ímpeto de seus passos para ter certeza de que nenhum dos criados próximos tinha ouvido aquilo. Mostrou os dentes para o filho numa careta de desaprovação, que era o máximo que poderia expressar num lugar tão público, e baixou a voz antes de prosseguir caminhando. — Isso é a ocasião perfeita para que mostremos ao resto da nobreza que Júlio foi plenamente aceito entre nós. Um adotado fazendo parte de uma caça aos noivos! — Apesar de seu estado maníaco poucos instantes antes, a ideia lhe arrancou um sorriso satisfeito. — Consegue imaginar? Vamos conseguir casá-lo com alguma moça de alto pedigree, fique vendo.

— Desde que ele não interrompa o meu casamento — Lancelot deu de ombros, mas a placidez do gesto não conseguiu esconder o desagrado em seu rosto. — Falando nisso...

— Meu cavalo, Tomás — Leonardo irrompeu, lembrando-se de que estava estressado. Sem se dignar a falar com a equipe atarefada de cavalariços que terminava os últimos ajustes nas ferraduras e selas dos animais recém-comprados, ele voltou a atenção para o camareiro, que se afastara para ouvir o recado sussurrado de um criado. — Ele também está com sono? A madrugada está fria demais para ele? Por que estão aferrando o Peregrino, quando eu pedi – não, eu mandei – prepararem o Suspiro?

— O frio não é brincadeira, pai — Lancelot aproximou-se da forja que ficava no canto oposto dos estábulos, ainda incandescente devido ao uso recente, e estendeu as mãos para esquentá-las nela. — O mar acordou virado, hoje. Com essa névoa, vai ser difícil achar a Luciana e o afrescalhado que roubou ela.

Leonardo olhou para o céu como se percebesse as grossas línguas de neblina escorrendo das nuvens baixas pela primeira vez. O ar tinha um cheiro forte de água marinha, sem dúvida carregado da costa até ali por uma frente fria, e seria demais esperar que o sol matutino que mal conseguia penetrar o dossel cinzento fosse capaz de amornar a gélida atmosfera. Com um calafrio, o patriarca dos Saturnino imaginou se a filha não tinha planejado a fuga para que coincidisse com as névoas de inverno.

— Notícias do dorminhoco? — Leonardo perguntou a Tomás, distraído com as formações constantemente mutáveis da névoa contra o vento quando o camareiro se aproximou. — Quanto tempo ele demora para vir se juntar a nós? Diga a ele que...

— Ele já foi, senhor. — Tomás falava com delicadeza, ciente de que poderia ofender o patrão se lhe transmitisse o recado do criado com poucas palavras. — Chegou ao meu conhecimento que ele interceptou a ama que descobriu a ausência de lady Luciana Catarina e recebeu a notícia dela antes de mim. De acordo com os cavalariços, ele mesmo aferroou Suspiro e, cerca de quarenta minutos atrás, partiu com ele para a caçada.

Lancelot, que ouviu o anúncio de onde estava, abriu um sorriso largo e sem humor:

— Mas que filho da puta.

Poucas tradições eram melhor consolidadas entre as Famílias do Império que a caçada aos noivos. Ela surgiu como resposta à alta ocorrência de sequestros e casamentos clandestinos entre os jovens da nobreza, e seu costume era uma forma de impedir uniões indesejadas e desperdício de úteros saudáveis. Não havia regras, assim como não existem leis que impeçam alguém de comer com as mãos logo depois de sair do banheiro, mas o costume apontava para uma série de comportamentos aceitáveis pela duração da caçada:

1)      o casal deve ser encontrado dentro das primeiras vinte e quatro horas posteriores à fuga;

2)      os noivos só podem se casar oficialmente após o término dessas vinte e quatro horas;

3)      os homens da Família da noiva, que é entendida como vítima, não devem empregar mercenários na busca, uma vez que a honra é medida de acordo com a proficiência dos parentes da noiva, e não de acordo com o dinheiro que eles podem desprender contratando rastreadores;

4)      membros agregados da família (i.e. adotados, servos enobrecidos e homens incluídos à árvore genealógica através de casamento) podem participar da caçada, mas em detrimento dos homens ligados à noiva pelo sangue. É comum que eles sejam excluídos do evento como um todo.

O Príncipe, muito recentemente batizado como Júlio Augusto Saturnino, não sabia da intenção nutrida por seu pai adotivo de incluí-lo na caçada. O que ele sabia era que queria participar dela para firmar sua posição como membro legítimo da família, e por isso pagou uma ama para ficar de olho nas idas e vindas de sua irmã. Não era preciso ser um gênio para adivinhar que Luciana estava prestes a fazer uma loucura; o modo como ela olhou para o pai e para o irmão adotivo nos últimos dias era indício suficiente.

A trilha dos noivos atravessava as ruas enevoadas da região nobre de Nova Soteros. Alguns dos olheiros que Júlio pagara para ficar a postos no bairro o ajudaram a se orientar pelo labirinto ondulante cujas paredes eram mansões centenárias. William Marino era um cavaleiro melhor do que Júlio antecipara, sendo capaz de cobrir uma distância considerável pela neblina capaz de obscurecer os maiores obstáculos até ser tarde demais para desviar deles, e por isso não demorou até que o Príncipe descesse do cavalo e entrasse por um beco próximo, usando as reentrâncias no reboco para escalar até o telhado da mansão mais próxima. Ele podia ter sido aprovado nas aulas de equitação em tempo recorde, mas ainda não era capaz de superar num cavalo a velocidade em que só um menino de rua experiente conseguia chegar pelo alto.

Júlio saltou, correu e rolou. O eco de suas botas contra a cerâmica era amplificado pelo silêncio espectral das brumas espiraladas, e ele considerou mais de uma vez retirá-las pela tração avantajada e a quietude inigualável de pés descalços. Forçado ao chão pela interrupção de telhados que era a praça principal do Distrito da Coroa, ele correu pelas calçadas de rocha ladrilhada e localizou o rastro que estivera seguindo na estrada enlameada. Luciana e seu noivo estavam fugindo para fora da cidade, buscando abrigo na mata.

Apertando o passo, o Príncipe correu parede acima, pendurou-se numa janela do primeiro andar de um casarão e, assustando uma empregada que espiava a rua para ver quem estava correndo àquela hora da manhã, escalou até o telhado. Ele arriscou um salto que não sabia se conseguiria vencer até a mansão vizinha, quase despencando quatro andares quando seus dedos teimaram em ceder à violência com que se penduraram na calha, e recompôs-se a tempo de captar no silêncio da manhã o relinchar de um cavalo com dor.

Começou a chover. Júlio, que se viu forçado a escolher entre as botas e o pescoço caso escorregasse nas telhas molhadas, lançou-se numa queda controlada para o chão e, virando uma esquina, achou um dos cavalos que tinha comprado se debatendo em agonia – William, ao que parecia, subestimara suas habilidades como jóquei e se chocara contra um poste. Uma das pernas dianteiras do animal não se esticava no mesmo ritmo que as demais, e ao se aproximar dele Júlio notou uma fratura exposta. O sangue praticamente brilhava contra o monocromo cinzento que era a luz solar, seu vermelho-vivo trazendo lembranças desagradáveis à tona para o Príncipe. Ele sacou o sabre e cravou-o no coração do cavalo, encerrando seu sofrimento com um único golpe certeiro, e ergueu os olhos a tempo de ver sua irmã adotiva sumindo na esquina seguinte.

Júlio não correu mais com tanta urgência. Limpando o gume da espada na manga de sua sobrecasaca laranja e guardando-o na bainha, ele avançou quase caminhando pelo rastro deixado pelas botas desajeitadas de Luciana e pelos sapatos de festa que seu noivo decidira usar para um rapto. A chuva aumentava em intensidade, fechando ainda mais o aperto sufocante das nuvens que envolviam o sol, e mechas do cabelo comprido de Júlio começaram a derramar-se sob o peso da água. Ele tinha o rosto parcialmente encoberto por um capuz loiro quando chegou ao cemitério, cujos portões tinham sido forçados com um sabre também roubado da Mansão Saturnino e abandonado à beira do caminho de mármore que levava até os túmulos.

— William Marino — a voz de Júlio, impostada para soar mais grave do que seus quinze anos permitiam, foi seguida por um trovão. — Pelo direito de caçada vencida, e como representante da Família de sua noiva, eu o declaro derrotado. Você se rende?

O Marino deserdado paralisou-se no ato de erguer Luciana o suficiente para que ela pulasse o muro do cemitério e virou-se, o rosto selvagemente aterrorizado. Com o cabelo preto cortado curto, em estilo militar, não havia nada protegendo seus olhos verdes do desaguar inclemente. William largou a noiva como se ela estivesse quente, recuando de costas contra a parede e no ato tropeçando numa poça de lama que lançou rajadas de marrom contra os múltiplos tons de azul de seu traje oficial da Família Marino. A própria Luciana, de repente sem apoio nos pés, deslizou pelos blocos escuros do muro e também se virou. Os olhos do pai lhe conferiam uma ferocidade estranhamente masculina, contraste desconcertante com sua figura miúda e delicada de quadris proporcionalmente largos, e a juba grisalha em que havia se tornado o seu penteado de dormir contribuíam para o seu aspecto de animal encurralado. A expressão de susto no rosto dela durou apenas um segundo, e então foi substituída por um sorriso de escárnio.

— Você não representa a minha Família, seu favelado de merda — ela tornou a se virar para o muro, sinalizando para que William a ajudasse, e riu para si mesma. — Vou te fazer um favor e não mandar meu marido te quebrar no meio se você ficar fora do meu caminho.

— Você se rende? — Júlio sacou o sabre, aproximando-se do casal.

William, pouco convencido por sua noiva, ergueu as mãos em reconhecimento de derrota. Ela percebeu o gesto e o empurrou com força, frustrada:

— Ele não pode me tirar de você — disse, a voz cada vez mais alta devido à salva de gotas de chuva ressoando como um exército de sussurros. Um novo trovão a obrigou a praticamente gritar a frase seguinte. — É a tradição! Você só não pode lutar com meu pai ou meu irmão. Pode bater nesse idiota.

— Ele está armado — balbuciou William.

— Ele é uma criança — ela vociferou, e por um segundo foi como se estivesse disposta a ir ela própria para cima do irmão adotivo. — Nem sabe o que fazer com essa espada! Quebra a cara dele!

Subitamente consciente do quão alto os vinte e três anos de idade faziam William, o Príncipe brandiu a espada num arco que lançou respingos de chuva na direção do casal.

— Eu vou falar isso bem devagar — Júlio disse, esforçando-se para superar a altura da tempestade ao seu redor sem denunciar o timbre real de sua voz adolescente. — Vocês mataram um dos meus cavalos e dobraram no meio um sabre em perfeito estado; vocês me deixaram irritado. Lorde Marino — ele apontou o sabre para o noivo inseguro, ainda com as mãos para o alto —, algo me diz que o senhor ouviu muitos dos rumores que os desocupados espalham a meu respeito. — Fez uma pausa, cravando nos olhos da irmã os seus próprios. — Acha que eles são verdade? Que eu sou uma espécie de prodígio do crime, que matei e roubei até conseguir comprar minha adoção, que tenho contatos no submundo que podem resolver meus problemas?

William hesitou, olhando da noiva para Júlio.

— Não? — Ele gaguejou, seu corpo tão inclinado contra a parede que faltava pouco para que o jovem lorde se tornasse parte dela. — Eu não sei. Talvez.

— Boa resposta — Júlio parabenizou, a voz afetando um sorriso que não estava lá. — Seguindo esse raciocínio, talvez eu volte para casa agora e mate o seu futuro sogro junto com seu futuro cunhado, herde a fortuna dos Saturnino e deserde a cadela traiçoeira com quem você quer se casar. Talvez eu ache bonita a ideia de casar dois deserdados e ver eles mendigando juntos enquanto uma se prostitui e o outro morre com a peste numa calçada. — Deu um passo à frente, espetando o sabre no peito de William. — Ou talvez eu só segure você aqui até que o pai dela chegue, deixe ele tirar ela de você e então vá te procurar na casa do amigo que está te hospedando por agora e corte sua garganta enquanto você dorme. Rua Majestade, não é? Número cento e catorze. Talvez eu tenha olhos lá, olhos te observando desde que você traçou esse plano ridículo e nem se dignou a usar seu próprio cavalo, suas próprias armas ou um par de botas decentes. — Fez uma pausa, desafiando William a fazer sua noiva orgulhosa e dar a Júlio um motivo para empalá-lo. — Como eu disse, foi uma boa resposta. O talvez quer dizer que eu posso não fazer nada disso se você simplesmente sair daqui antes que eu corte essa sua cabeça, mande ela pro teu pai e faça ele me adotar também.

William lançou um último olhar para sua noiva, que acompanhara a conversa com uma raiva muda eclodindo nos olhos, e pediu desculpas antes de sair correndo em meio às lápides lavadas pela chuva. Luciana tentou correr atrás dele, mas foi impedida quando o Príncipe a agarrou por trás, pelos cabelos, e puxou com força suficiente para levá-la ao chão. Apesar de a irmã ser mais velha e mais pesada, Júlio não encontrou problemas para acomodá-la sobre um dos ombros andar com ela até onde Suspiro, que dera seu melhor para seguir o dono desde que este o abandonara, o recebeu. Amarrando Luciana com trapos feitos de seu próprio vestido de noiva, agora sujo de lama e encharcado de chuva, Júlio a atirou no lombo do cavalo e guiou ambos pelo centro da cidade, que agora estava bem mais acordado que antes. A população, que observou a procissão de suas janelas ou sob a cobertura da fachada de estabelecimentos pelo caminho, não demorou a juntar dois com dois e a entender a figura da noiva amordaçada como o resultado de uma caçada bem-sucedida.

Risadas ecoaram pelas ruas, e Júlio encontrou nelas o pagamento pelo trabalho que a irmã tinha lhe dado. O cavalo morto tinha sido um baque mas, no cômputo geral das coisas, conseguir trazer Luciana de volta para casa sem matar o noivo dela tinha sido uma vitória e tanto. Deserdado ou não, William era um nobre de sangue puro pertencente a uma Família antiga – seu pai esqueceria as desavenças que tivera com ele assim que precisasse defender a honra de seu nome contra um “favelado de merda”.

A raiva azul nos olhos de Luciana, que em determinado momento desistiu de lutar, estava travada no irmão adotivo como a mira de uma flecha. Aquele seria um problema, o Príncipe calculou, e talvez houvessem mais problemas quando voltasse para casa depois de sair sozinho para caçar; mas as risadas aumentavam à proporção em que a chuva diminuía, e os nobres do Distrito da Coroa vinham à rua para provocar a noiva derrotada ao mesmo tempo que para celebrar a vitória de um adotado.

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Comentários

  1. Oie! Bom dia! Hoje eu amanheci feliz, mega power feliz. Vou fazer a minha leitura diária do seu livro. Viu ? Superou coração de tinta ^_^ OBRIGADA POR TER FALADO COMIGO. DESCULPA DE VERDADE. Só posta a continuação, virou meu livro favorito

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  2. [A minha teoria de que é uma referência a figuras histórias e eu tentei adivinhar quem são, se baseia no nome Julio Augustus, Luís Martin e outros nomes, mas pode estar errada. Só estou tentando adivinhar o final do livro]

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  3. Por favor não me chame de Stalker, sei lá. Sabe por que eu faço isso? No fundo eu procuro por um leitor, por um amigo ou por alguém que esteja disposto a morrer pra solucionar um problema comigo. que esteja disposto a estudar por causa do meu livro. que me procuro em todos os lugares porque eu fui alguém importante.

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  4. Procuro alguém que conheci, como o Alec. Disposto a me divulgar a imprimir papel na faculdade e sair distribuindo por aí mesmo que eu odeie a pessoa porque EU posso fazer diferença na vida da pessoa. Mesmo que ela me ODEIE.

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  5. Sua luciana me lembra o inferno de dante, além do mais NUNCA vi um leonardo em ROMA ou ITALIA do lado de um JULIO AUGUSTOS. Sua referencia da história da VELMA contada para o JULIO AUGUSTO, em um homem em um quadro é uma referencia ao RETRATO DE DORIAN GREY

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  6. oi, hoje eu tenho terapia eu não quero ir. e também não quero comer

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  7. eu acho melhor ir embora, não é pra ficar com dó, isso vai parecer chantagem. sei lá de repente tudo vira stalking, chantagem, sei lá o que sei lá o que. só queria que alguém da internet sentisse falta de mim quando morresse

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