Pular para o conteúdo principal

Em defesa de protagonistas idiotas

 


Um dos grandes desafios da escrita criativa — especialmente  no que tange à caracterização — é entender onde termina o escritor e começa o personagem. É muito difícil para mim, por exemplo, separar minha visão de mundo da que a pessoa que estou escrevendo deveria ter. Há também aquela suave camada de fantasia pessoal em que quero que o personagem reaja a certas situações como eu reagiria no lugar dele, o que em si mesma ajuda a criar as muitas armadilhas self-insertistas.

Para quem não sabe, self-insert ("autoinserção") é o nome que anglófonos dão a personagens que evidentemente criados como versões ficcionais da pessoa que os está escrevendo, geralmente com o intuito de "interagir" com os demais personagens da história de forma quase fetichista. O único caso de que consigo lembrar é o de Jake Goldman, que se incluiu na nova geração do desenho animado das Meninas Superpoderosas como um interesse amoroso da Florzinha, mas o fato é que a prática não é nem de longe tão incomum quanto deveria.

É óbvio que toda obra literária tem o DNA de quem a compôs. Estilo narrativo, estilo de prosa, temas, senso de humor (ou falta dele); tudo faz parte da personalidade do autor e de como ela afeta as habilidades dele de transmitir ideias, contar histórias e descrever personagens. O self-insertismo é mais uma consequência de se deixar levar do que uma prática literária ruim, e é por isso mesmo que protagonistas idiotas em filmes de terror nos incomodam tanto.

Hã?

Não é só o escritor que se coloca no lugar dos personagens que cria. O leitor, que alternadamente também é expectador, espera criar certo nível de identificação com os personagens que acompanha. Essa identificação pode vir de lugares óbvios como história de vida, cor da pele ou identidade sexual, mas também advém de lugares mais sutis, como reações a determinadas situações e opiniões sobre determinados assuntos. É difícil para alguém se colocar no lugar de um completo idiota, assim como é difícil simpatizar com maldade cartunesca. O ponto é que, do outro lado do espectro, a ficção como a conhecemos seria muito diferente se todo escritor escrevesse personagens como se eles fossem ele, e se esses personagens fossem feitos para tomar as decisões que a maioria dos expectadores tomaria no lugar dele. Às vezes é necessário abrir mão da identificação para ser capaz de apreciar histórias interessantes em que a maioria de nós jamais tomaria parte. Exemplo:

Fall foi um filme difícil de assistir porque tenho medo de altura. A fobia nunca chegou a ser diagnosticada clinicamente, mas mesmo subindo escadas para trocar lâmpadas no meu antigo trabalho eu sentia as pernas tremendo e as palmas das mãos pegajosas de suor. A história sobre duas escaladoras subindo uma torre enferrujada de seiscentos e dezesseis metros (!!!) foi apresentada com cenas de me deixar com a cabeça leve, e grande parte da dificuldade de manter meus olhos na tela veio daí — mas não toda ela. As protagonistas desse filme, veja bem, são as pessoas mais estúpidas que eu já vi.

O longa-metragem, que foi lançado mês passado como mais recente adição do gênero "pessoas presas num lugar só porque é econômico foi uma decisão artística" e apresenta Jeffrey Dean Morgan recebendo o salário mais fácil da carreira dele, parecia interessado em me provocar desde o início. O roteiro não poupa esforços em mostrar ambas as moças que o protagonizam tomando decisões questionáveis, desafiando a morte, demonstrando superficialidade como se fosse uma virtude e, no que talvez seja o pecado mais agravante, não tomando quaisquer precauções para o caso de alguma coisa dar errado.

Minha irritação durante a primeira metade de Fall chegou a níveis tão altos que comecei a acreditar que as falhas na caracterização eram furos de roteiro. Digo, ninguém negligenciaria medidas básicas de segurança tanto assim, certo? Mas, em dado momento, comecei perceber que na verdade eu não faria nenhuma das coisas que aquelas duas estavam fazendo. Eu nunca subiria uma torre de meio quilômetro com nada além de uma cordinha, uma garrafa d'água e um drone; eu nunca faria algo parecido sem deixar um parente ou amigo de sobreaviso para que dessem pela minha falta caso algo desse errado. Aquelas personagens, sim. E, usando como prova situações reais envolvendo caçadores de adrenalina por todo o mundo (a história real por trás de 127 Horas é o melhor exemplo disso, vindo em segundo lugar os russos que gostam se pendurar em arranha-céus por diversão), pode-se dizer que se meter num problema por causa de negligência é algo bem comum para alguém como elas.

Acabei achando o filme muito melhor depois de chegar a essa conclusão e, por coincidência ou não, terminei considerando-o um dos melhores filmes lançados este ano. A proposta é muito bem explorada, espremida até só sobrar o bagaço, e a partir dela o roteiro utiliza criatividade e a própria estupidez das protagonistas para criar as situações mais absurdas e tensas. Existem furos de roteiro, sim — sendo o maior deles o sumiço das meninas, uma delas influencer, passar batido por quase três dias —, e a estrutura formulaica da narrativa é um detrimento para ela própria, mas falando em méritos audiovisuais a obra é experiência e tanto: excelente edição, fotografia decente, trilha sonora perfeita para realçar o clima e um twist suculento no finalzinho.

Fall, porém, não vai ficar em minha memória por ser bom. Muitos dias depois de assistir o filme, eu me peguei questionando se ter protagonistas tão burrinhas é o tipo de escolha que pode ser validada pelo resultado que alcança. O filme foi bom, e ser protagonizado por idiotas certamente contribuiu para isso, mas quantas pessoas não foram capazes de superar sua necessidade de identificação e terminaram o filme considerando-o ruim, ou achando que a estupidez das personagens era uma reflexão da estupidez do roteiro em si? "Qualquer comunidade que se diverte fingindo ser idiota será invadida por idiotas de verdade que acreditam estar em boa companhia", disse René Descartes. Acredito que o mesmo pode ser dito de obras literárias. É difícil não julgar um autor pelas atitudes de seus personagens. The Shallows, de 2016, é um filme do mesmo gênero que conseguiu minha apreciação contando uma história muito mais inteligente, tanto no âmbito do roteiro quanto na condução de sua protagonista.

Com isso dito, passei a desenvolver uma simpatia por histórias protagonizadas por pessoas cujas atitudes se opõem às que eu tomaria. Não me refiro a pessoas diferentes de mim num sentido óbvio, ou a vilões cujos crimes eu gosto de pensar que jamais cometeria, mas sim protagonistas com uma visão de mundo muito menos ampla e cuja noção de perigo é quase nula. Você poderia dizer que qualquer filme de terror é assim, caro leitor, e estaria moderadamente certo. Mas e em outros gêneros? Consegue imaginar um filme de ação cujo herói é extremamente desagradável em vez de virtuoso, um filme de mistério em que o protagonista não consegue resolver as pistas por ser intelectualmente incapaz, e não porque tem uma peça faltando? Muito se fala sobre diversidade e representatividade hoje em dia, mas muito pouco se faz para criar personagens que somos forçados a aceitar em vez de simplesmente nos identificar.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Príncipe das Letras – Capítulo Seis – Resiliência do Mais Forte

  Brás de Assis percebeu, em dado momento, precisava mesmo ir trabalhar. Era assim que descansava a mente – trabalhando. O hábito surgira em seus primeiros anos na Academia, consequência do estado caótico de seus pensamentos depois de horas intermináveis de memorização, leitura e treinamento de combate. O corpo, Brás percebeu, era indiferente à exaustão espiritual dos estudos. Ele então passou a usar suas horas livres em escapadas muito pouco comuns para um jovem aluno da mais prestigiosa instituição do mundo: metia-se a aprendiz de carpinteiros, sapateiros, estivadores, alquimistas ou seja lá quem precisasse de um ajudante sem nome. O conhecimento acumulado nos anos dentro da Academia permitiam que Brás desempenhasse qualquer função, facilitando o aprendizado de novas habilidades, mas ele se concentrava no aspecto físico da coisa. Corria para dar recados, firmava tábuas para serem marteladas, mantinha o fogo de uma forja aceso... Tudo para não deixar que seus pensamentos o cons...

Resenha │ Coleção Histórica Marvel: Os X-Men (Vols. 5-8)

Desenvolvi um preconceito enorme contra os grandes roteiristas de quadrinhos dos anos 80. Não os que surgiram  nos anos 80, veja bem, mas o que atingiram seu auge na década em questão. Agora que penso a respeito, acho que tem a ver com a transição da mídia de um público para o outro – foi nos anos 80 que decidiram fazer quadrinhos "para adultos" nos EUA e, por mais que a mudança tenha trazido algumas das melhores graphic novels  de todos os tempos, ela também criou um limbo estranho: a maior parte dos quadrinhos ainda era desenhada e colorida para apelar para crianças e adolescentes e os diálogos continuavam expositivos e sem personalidade, mas temas cada vez mais "adultos" (saca só o uso de aspas só nesse parágrafo) começavam a fazer parte das histórias. O resultado, pelo menos para um observador desatento como eu, eram histórias que imploravam para que você as levasse a sério enquanto todo mundo usava ombreira e pelo menos quatro matizes de cores diferentes no uni...

Príncipe das Letras – Capítulo Cinco — Agouros na Ventania

  A pergunta veio num arfar irregular, ocasionada pelo estado quase inconsciente em que a matriarca dos Grená se encontrava depois que o Príncipe levara seus corpos ao limite: — Ficou sabendo sobre a Ducentésima Vigésima Nona? Ele sabia, sim, e não conseguia parar de sorrir desde que recebera a notícia. Era esse o motivo pelo qual lady Grená – Medeia, como agora permitia que Júlio lhe chamasse – chegava mais exausta do que o normal ao término da visita daquela noite. Bom, o motivo mais importante, pelo menos. Júlio também havia caprichado no uso dos lábios e dedos porque dentro em breve iria pedir um favor. — Não dou muita atenção a notícias do Exército — o Príncipe mentiu, afetando desinteresse enquanto vestia suas calças. — Digo, está falando do Exército, né? — Meu canarinho bobo — Medeia riu fracamente, o rosto semienterrado nas almofadas que estivera mordendo para abafar os gritos pela última meia-hora. O tremor do riso fez ondular levemente o corpo desnudado e incomume...