A notícia, quando chegou, se espalhou dos becos aos clubes bacanas... por salas onde tudo que você poderia querer estava à venda... passando por confessionários onde tudo era pago. Se espalhou feito fogo... ou colocando mais apropriadamente... feito uma doença. O Coringa estava sendo liberado do Asilo Arkham.
—
Não é a primeira vez em que alguém tenta soltar ele assim — Dick apoiou as
costas numa estalagmite próxima à escadaria por onde tinha acabado de descer e
cruzou os braços com um despreocupado dar de ombros. — É só descobrir quem o
palhaço está chantageando. Sinceramente, Bruce. Uma reunião pra isso?
Ele
era o único vigilante à paisana no interior da caverna que ficava no
subterrâneo da Mansão Wayne. A escolha não era deliberada, uma vez que Richard
Grayson tinha acabado de encerrar seu turno como detetive no 12º Distrito
Policial de Blüdhaven e mal tivera tempo de ligar a moto antes de seu antigo
mentor o convocar, mas a atitude dele fazia parecer que a decisão de não se
vestir de acordo para a reunião familiar era uma declaração em si mesma. Dando
seu melhor para parecer confortável em sua jaqueta de couro, camiseta estampada
com o logotipo do Circo Haly’s, jeans e sapatos sociais, Dick acenou com a mão
livre para Tim e sorriu para Barbara – ignorando sumariamente a presença de
Jason ao seu lado e fingindo que o “sinceramente” tinha sido cumprimento
suficiente para seu primeiro reencontro com Bruce depois de um ano e meio. Seus
olhos azuis concentraram-se no chão de concreto nu, incapazes de enfrentar o
que quer que houvesse por trás dos olhos dos demais membros da família.
—
Você é encorajado a fazer sua própria investigação, se quiser — Bruce respondeu
secamente —, mas até onde fui capaz de perceber a liberação é legítima. — Ele
fez uma pausa, e Dick pôde sentir os olhos do homem que chamou de pai desde os
treze anos dardejando seu rosto. — Mais alguma ideia?
—
Talvez seja hora de nós mesmos chantagearmos alguém para mantê-lo preso — Jason
sugeriu.
A
frase saiu direta demais para ser uma piada, e um olhar rápido para o lado
garantiu a Dick que o irmão adotivo e sua eterna carranca marcada por
cicatrizes não estava brincando, mas no canto oposto do cômodo Tim soltou uma
risada mal disfarçada como tosse. Jason costumava mascarar seu senso prático e
falta de paciência com os meios indiretos de Bruce com senso de humor, e em
outra vida aquele comentário teria sido mesmo uma piada, mas morrer pareceu ter
eliminado a capacidade de Jason de brincar quando o assunto era Coringa – além
de tê-lo convencido a parar de pintar o cabelo. Os cabelos ruivos dele,
ensebados e sem corte definido, tinham mais branco na frente do que sinais de
preto nas pontas.
O
novo traje de Jason era quase invisível em meio às sombras do canto mal
iluminado em que ele se enfiara, excetuando pelo símbolo de morcego gravado em
seu peito em vermelho-neon. Ao que Dick era capaz de perceber, a roupa era uma
mistura de traje táctico de soldado das forças especiais e protótipo de
armadura da WayneTech; bonita e funcional, mas sem dúvida feita para não se parecer com o traje vermelho e
amarelo que Tim estava usando. O capacete escarlate, que Jason insistia em
chamar de capuz, tinha sido depositado no tampo da larga mesa redonda no centro
da caverna. Dick aprovava o efeito da cor do capacete em conjunto com o símbolo
de morcego, assim como a ausência de uma capa, e teve de segurar a língua para
não fazer um comentário a respeito de como seus primeiros meses de
independência teriam sido mais fáceis de Bruce tivesse lhe dado um uniforme que
custasse metade do que aquele parecia custar.
—
Você é dono do Arkham, não é? — Jason insistiu ao perceber que ninguém levara
sua ideia a sério. — Ameace despedir o idiota que estiver soltando ele. É bem
simples.
—
Ah, claro — Barbara abandonou a expressão de divertimento e adotou uma que
combinava mais com qualquer uma de suas interações com Jason: olhos espremidos,
lábios contorcidos num esgar de desaprovação. — Por que não ele não aproveita e
privatiza a polícia de Gotham pra acabar com a corrupção?
—
Boa pergunta — Jason rebateu, incapaz de perceber a ironia ou sem se importar com
ela. — Por quê?
Tim
voltou a rir, e dessa vez nem chegou a disfarçar. Jason não gostou disso, e com
o dedo em riste começou um de seus longos monólogos sobre como as coisas
deveriam ser diferentes. Dick, que estava grato pelo ruivo ter voltado dos mortos
mas ainda assim não suportava a constante de autopiedade que ele exercia por
ter sido o único membro da família a ter sido assassinado, ignorou a discussão
entabulada com Tim para prestar mais atenção em Barbara.
A
filha do comissário Jim Gordon perdera o movimento das pernas há três anos, mas
muito de seu físico de super-heroína resistira à passagem do tempo numa cadeira
de rodas. Ela estava vestida com um agasalho de moletom cinzento, muito pouco
do logotipo da Universidade de Gotham ainda visível na estampa do peito – um
dos muitos pijamas que haviam se tornado seu uniforme de trabalho nos
computadores da Torre do Relógio. Dick não se importava com a falta de glamour
do moletom, ou mesmo o coque prático em que o cabelo ruivo dela tinha sido
preso – um ano e meio era tempo demais para ficar tão longe dela. Ele decidiu,
enquanto a voz de Jason ficava cada vez mais alta no limiar de sua consciência,
que usaria aquela visita a Gotham para se derreter uma vez mais naqueles olhos
verdes.
—
Patrão Timothy e mestre Jason — Alfred vinha descendo pela escada com uma
travessa de sanduíches e suco de laranja, postura impecável para combinar com o
terno. O mordomo serviu a refeição na mesa, tendo o cuidado de separar e
entregar a porção de Barbara num prato separado, antes de censurar: — Não se
tira proveito de uma discussão que não pode ser travada com civilidade.
—
Desculpe, Alfred — Jason murmurou, retraindo-se um pouco mais na sombra.
—
Desculpe, Alfred — Tim ecoou. O rapaz tinha chegado ao ponto de se levantar da
cadeira onde estava, iludido a respeito da imponência de seu corpo adolescente
magrelo naquele traje colorido, e o bate-boca desalinhara alguns dos fios
cuidadosamente penteados de seu cabelo preto cortado à moda da vez.
Barbara,
que mal prestara atenção à discussão devido ao intenso olhar que trocara com
Dick, encheu as bochechas com pão para disfarçar o rubor que vinha subindo às
bochechas pelo pescoço.
—
Sou dono de 27% das ações do Asilo Arkham — Bruce corrigiu, muito tempo depois
de todos terem ido buscar um sanduíche na pilha trazida por Alfred. — O lugar
não faz parte das Indústrias Wayne, e minha influência lá é bem limitada. Mesmo
que não fosse — ele lançou um olhar significativo para Jason —, permanece o
fato de que o Coringa está recebendo alta. Eu entenderia se vocês não pensassem
nisso dessa forma, já que o Coringa e eu estamos nessa dança há tanto tempo que
a ideia de mandá-lo para o Arkham não parece muito diferente de prendê-lo pelo
resto da vida, mas eu não fui responsável pela internação dele lá vez após vez
simplesmente porque não havia um buraco mais fundo para enfiá-lo.
—
Você está dizendo o que penso que está dizendo? — Jason quis saber, o verde em
seus olhos brilhando perigosamente. — Acredita em redenção para aquele
psicopata assassino?
—
Você estaria na cadeia se ele não acreditasse — Tim disparou, sorrindo.
—
Eu acredito em reabilitação — Bruce interrompeu. Ele não suspirava, mas o modo
como olhou de um filho adotivo para o outro pareceu cansado. A cabeleira preta
dele não tinha fios grisalhos, seu rosto anguloso não carregava rugas de
expressão ou olheiras devido às noites insones e seus olhos azul-gelo queimavam
com o fogo de uma juventude plena e capaz – mas em momentos como aquele os anos
de combate ao crime pareciam pesar sobre os ombros largos de Bruce, e ele
parecia velho e cansado e incapaz de sobreviver à menor provocação lançada
contra ele. Jason se aquietou, e Tim encarou o chão. — Se não acreditasse,
minha regra de não matar seria muito mais flexível. Eu nunca acreditei que alguém
seria capaz de consertar o Coringa, mas sempre esperei que sim. E,
aparentemente, foi o que conseguiram dessa vez.
O
peso daquela frase, de todos os sentidos dela, despencou no cômodo como se a
moeda gigante que servia de decoração no teto da caverna tivesse se soltado dos
cabos que a prendiam. Por muito tempo, ninguém ousou dizer qualquer coisa que
fosse. Dick, ainda sensibilizado pela expressão decepcionada no rosto do pai
adotivo ao ver os filhos brigando entre si, apanhou a si próprio dizendo:
—
Como pode ter certeza?
Bruce
o encarou. Dick reteve seu olhar por mais tempo do que achou ser possível, e
não encontrou nada da hostilidade que esperava; só tristeza, a mesma tristeza
decantada que vinha envenenando o interior daquele homem desde que ele era uma
criança.
—
Eu fui visitá-lo — Bruce respondeu, ainda com os olhos travados nos do filho. —
Jim me deu a notícia assim que a primeira avaliação psicológica positiva foi
divulgada pelo Arkham e eu tive de ver com meus próprios olhos. Depois disso eu
investiguei o doutor Roman Fell, que é o psiquiatra responsável pelo Coringa e
também o responsável pela avaliação, e não achei nada que pudesse comprometer o
julgamento dele; o mesmo vale para a equipe sob comando do doutor Fell, para a
diretoria do Arkham e para... Bom, todos os possíveis envolvidos na decisão de
dar alta. — Antecipando a pergunta que Tim estava para fazer, Bruce se virou
para ele e Dick praticamente suspirou de alívio por poder quebrar o contato
visual. — Eu também pedi segundas opiniões. Usei minha influência no Arkham
para pedir avaliações com outros psiquiatras, e então paguei com meu próprio
dinheiro para trazer alguns dos melhores profilers
do país até Gotham para que eles pudessem avaliá-lo. Só para ter certeza, eu
movi uns pauzinhos na prefeitura e consegui uma moção do promotor municipal
para que a liberação do Coringa só pudesse acontecer legalmente depois que um
laudo médico assinado por três profissionais diferentes atestasse que ele
estava são.
—
Ah — Barbara fez —, então foi aí que a notícia vazou.
Dick,
captando o sentido daquela frase, franziu o cenho:
—
Vocês não estavam sabendo de nada disso?
Tim
balançou a cabeça negativamente. Bruce interveio antes que ele pudesse se
pronunciar:
—
O Coringa é responsável por muita dor e sofrimento nesta cidade — fez uma
pausa, pareceu hesitar. — Nesta família, também. Eu não queria reações
precipitadas. Eu não queria que vocês fossem forçados a considerar a ideia de
vê-lo livre e potencialmente capaz de viver uma vida normal sem ter certeza de
que não era mais um truque para soltá-lo nas ruas.
—
Mas você foi visitá-lo — Dick murmurou. No silêncio da caverna, sua voz saiu
mais alta que o planejado. — Você soube que não era um truque na hora em que
botou os olhos nele, não soube?
—
O Coringa já me enganou antes.
Foi
a vez de Dick procurar os olhos do pai. Bruce retribuiu, mas não com a placidez
tristonha de sempre – havia um desafio nos olhos dele, um pedido para que Dick
o convencesse de alguma coisa. Mesmo que soubesse o que essa coisa era, o
próprio Dick não seria capaz de atender àquele pedido.
—
Você soube — ele disse, simplesmente.
A
frase saiu como uma acusação. De seu canto, Jason soltou um xingamento baixo.
Barbara entregou a Alfred o prato com o sanduíche comido pela metade, e a
expressão enjoada em seu rosto soletrava arrependimento pela metade que ela
tinha comido. Tim não disse nada, não deixou que seu rosto traísse qualquer
emoção e se manteve perfeitamente imóvel em sua cadeira.
—
A terceira assinatura foi autenticada hoje — Bruce anunciou, e em seu tom de
voz definitivo havia também uma admissão de culpa. — O Coringa será liberado
amanhã. Eu ainda estou investigando as circunstâncias, e pedi a alguns membros
da Liga que conduzissem investigações próprias para o caso de ser um criminoso
de grande porte arquitetando algum tipo de plano para soltar nossos piores
inimigos. Enquanto nada for provado, a decisão de liberar o Coringa permanece válida;
e, como tal, deve ser respeitada.
—
Você quer que protejamos ele — Jason praticamente rosnou as palavras.
—
Quero que vocês o protejam de si mesmos. — Bruce lançou um olhar para Barbara,
que tentava controlar as lágrimas que se formavam sem denunciá-las. — Tudo que
precisam fazer é não tomar decisões das quais possam se arrepender. Que se
preparem para o caso de eu não conseguir provar que é uma conspiração e acabe
deixando o Coringa livre. Eu...
—
Alfred — Barbara interrompeu, a voz trêmula. — Pode por favor me levar para
casa?
O
mordomo hesitou por um momento, trocando um olhar rápido com Bruce, e então
empurrou a cadeira de rodas até o elevador que dava para a garagem. Barbara não
disse nada quando foi embora, e seus olhos marejados permaneceram fixos em
Bruce até as portas do elevador se fecharem entre ambos.
Jason
pegou o capacete na mesa e subiu pela escada que levava à entrada secreta da
caverna da sala de estar da mansão. Incapaz de deixar o membro mais explosivo
da família sair daquela forma, Bruce o chamou:
—
Jason?
O
filho adotivo virou-se, interrompendo a subida entre um degrau e outro. Seus
olhos seriam capazes de incendiar toda a caverna se pudessem, e sua postura era
tensa como a de um grande felino prestes a saltar. O capacete tremia na mão que
o segurava, o reflexos das lâmpadas ondulando no vermelho vivo.
—
Isso é tudo? — Jason perguntou, a voz rouca de raiva.
—
Por favor...
—
Já tivemos essa conversa — ele rosnou. — Eu não vou matar o palhaço. — Voltou a
subir, pisando duro. — Mas vou comemorar quando lincharem ele.
O
som da porta secreta se fechando foi o único a ecoar pela caverna por muito
tempo.
—
A polícia vai proteger ele? — Dick quis saber.
Quando
ele ergueu os olhos para Bruce, viu nos dele um lampejo de gratidão.
—
Vai. Um esquadrão inteiro por pelo menos seis meses. Jim vai supervisionar,
mas...
—
Seria bom ter um policial de confiança — Dick concordou. — Acha que consegue me
colocar no esquadrão? Oficialmente, digo. Não vou poder tirar licença.
—
Claro. — Bruce se virou para Tim. — Posso contar com você?
O
rapaz, que permanecia perfeitamente acomodado em sua cadeira, abriu um
sorrisão. Não era um sorriso sincero, e sim um reflexo nervoso de pura tensão e
incerteza, mas ainda assim Tim respondeu:
—
Sempre.
Bruce
se levantou, e mesmo à distância em que estava Dick reconheceu a vaga sensação
de assombro se espalhando em seu interior: seu pai adotivo sempre parecia mais
alto e forte do que ele se lembrava. O uniforme cinza segmentado pelas peças da
armadura por baixo era visivelmente novo, provavelmente uma nova versão do
traje, e a capa preta conseguia de alguma forma não parecer ridícula como a
amarela presa aos ombros de Tim. Bruce puxou do manto o capuz com orelhas de
morcego e o ajustou no rosto, e mesmo em suas memórias mais antigas Dick não
conseguia lembrar de ter visto aquele gesto sendo executado com tamanha leveza
– e aquilo foi como uma confirmação de ter tomado a decisão certa.

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