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O Dragão e o Morcego — Dois

 

— Você não precisa ir — Gordon disse, a incerteza em sua voz traindo mentira. — O lugar já foi cercado, e nosso melhor negociador já está chegando lá...

Bruce o interrompeu com um olhar que, imaginava, sua máscara impedia de ser qualquer coisa que não ameaçador. Quinze anos haviam se passado desde que conhecera Gordon mas, apesar do grisalho nas têmporas ruivas dele e do número exponencialmente maior de rugas por trás das lentes grossas de seus óculos, a insistência dele em tratar Bruce como um policial nunca mudou.

O topo do prédio da Unidade de Crimes Hediondos estava particularmente frio naquela noite e, com o holofote ainda ligado atrás deles, não era difícil ver as nuvens de vapor criadas pela respiração do comissário. Tanto frio no verão, segundo dizia o folclore de Gotham, queria dizer que Solomon Grundy estava dando um passeio fora de sua cova. Uma lufada de ar empurrou a capa de Bruce para a frente, e o tecido estalou contra si próprio ao ondular no vento. Ele não queria se preocupar com Grundy. Não naquela noite.

Gordon suspirou e acendeu um cigarro.

— É uma distração — ele constatou, sombrio. — Harley?

— Quem mais? — Bruce andou até a beirada do terraço e, com um dos pés sobre a borda, disparou seu gancho numa gárgula próxima. — Me mantenha atualizado. Eu termino isso o quanto antes.

E no momento seguinte ele estava no ar, a sombra do traje de morcego confundindo-se com as densas trevas que entremeavam os arranha-céus de Gotham. Parte planando, parte corrigindo seu curso com o gancho, Bruce observou a cidade desenrolar-se abaixo dele com a mesma admiração melancólica com que a observou em seu jatinho ao voltar para a cidade quinze anos antes. Daquela altura, era fácil amar Gotham. Não era possível sentir o cheiro das sarjetas e becos, não era preciso ficar atento às sombras de assaltantes se aproximando e a arquitetura não parecia velha e decrépita; de onde Bruce estava, só se podia ver o desenho gótico dos prédios mais antigos e a teia feita de matizes de cor traçada pela iluminação pública e privada. Ele se pegou pensando se aquela era a versão idealizada da cidade que seu pai havia morrido defendendo, a versão que era visível da sacada de seu antigo escritório na Torre Wayne.

Bruce aterrissou rolando no topo de um prédio de condomínio e sacou o binóculo de um compartimento em seu cinto de utilidades. Abaixo, uma quadra à frente, estava a estação de metrô. Ao redor dela, todo o tráfego de veículos havia sido bloqueado pela polícia. Eram tantas viaturas estacionadas ao redor do prédio que uma alternância estroboscópica de vermelho e azul praticamente mudava a cor da fachada. Do lado de dentro, mesmo utilizando o máximo de zoom do aparelho, Bruce não conseguiu ver nenhum dos criminosos – sinal de que estavam muito bem posicionados. Ele conseguiu, entretanto, uma boa visão dos reféns: homens, mulheres e crianças amordaçados, amarrados de joelhos e com os dizeres “Soltem o Coringa” escritos em papel e colados em seus peitos. Bruce quase planou de encontro à ação, mas uma sensação estranha o impediu. Havia qualquer coisa familiar naquela situação.

Mesmo sem esperanças de encontrar alguma coisa, Bruce direcionou seu binóculo para um prédio próximo. Era um dos únicos pontos de vantagem da região, o único edifício mais alto que o condomínio daquele lado da quadra, e havia um homem deitado na beirada do terraço dele. Não, não simplesmente deitado; mirando um rifle de precisão na direção da estação de trem. Uma rápida varredura ao redor revelou que aquele atirador não era o único; haviam mais sete dispostos em prédios altos das redondezas, todos mirando a multidão de policiais que acumulava-se ao redor da estação de trem. Aquilo não era coisa da Arlequina.

Prendendo o gancho na parede do prédio vizinho, Bruce o escalou até o terraço. O atirador não percebeu a presença dele, coisa que não conseguiria fazer mesmo se não estivesse completamente absorto no escopo de sua mira. Bruce se aproximou dele devagar, tentando absorver pequenos detalhes em seu traje militar para identificá-lo sem precisar de um interrogatório, e bem quando decidiu fazer o bote o homem caiu.

Esquecendo-se momentaneamente de como abafar o som de seus passos, Bruce correu até a beirada do terraço bem a tempo de ver o atirador, já desacordado, ser pendurado pelo tornozelo à parede do prédio. O capacete escarlate de Jason subiu por onde o homem tinha caído, e o silêncio subsequente foi constrangedor.

— Achei que estivesse cuidando do comboio de escolta — Jason disse, enfim. A voz pesadamente modificada pelos sistemas cibernéticos do capuz traía irritação. Ele se virou para voltar por onde tinha vindo. — Bom, já que está aqui, você cuida disso.

— Não seja infantil — Bruce censurou-o. — Vou precisar da sua ajuda.

Jason parou, um pé já no vazio, e virou a face inexpressiva do capacete na direção do pai adotivo:

— É uma situação com reféns. O Batman cuida disso.

— O Batman pode cuidar dos capangas, sim — Bruce enrijeceu a voz, apelando para os anos de treinamento e disciplina que tornaram Jason incapaz de resistir a um comando de seu mestre. — Mas não deles e de Slade Wilson. Parece que a Arlequina terceirizou.

***

Cara — Clemens estava começando a irritar pelo modo como enfatizava a palavra —, quem você irritou pra ser rebaixado e transferido ao mesmo tempo?

Dick sorriu para ele, querendo socá-lo nos dentes, e deu de ombros inocentemente. Pelo menos, pensava, tinha ficado com o volante; confiar no colega para dirigir a viatura seria esperar demais da paciência do recém-rebaixado oficial Grayson. Ele entendia que a situação com o Coringa era urgente, mas ainda assim não era capaz de perdoar Bruce por inventar aquela história de transferência; qualquer outra desculpa, de preferência uma que não envolvesse sua completa humilhação profissional, seria melhor.

O uniforme azul parecia desconfortável e limitante depois de meses acostumado com a liberdade indumentária de detetive; o quepe estava acabando com seu cabelo; Clemens era irritante. A única coisa que faltava para que aquela noite fosse um completo desastre era que chovesse, o que a julgar pelo frio estava prestes a acontecer. Ah, isso e o Coringa fugir. Claro.

Notícias sobre os reféns no metrô chegaram ao mesmo tempo em que os demais policiais da força-tarefa se reuniam para rir do colega recém-transferido que calhava de ser filho adotivo do milionário mais odiado da cidade. Os homens se revezavam fazendo comentários maldosos sobre dinheiro não comprar uma boa carreira quando chegou a notícia que o Batman não serviria de reforço durante o transporte do prisioneiro – que foi como os oficiais racionalizaram, acertadamente, que a situação do outro lado da cidade os afetaria. O próprio Gordon, mais tarde, viria até Dick para perguntar se ele conseguiria segurar a barra sozinho. O comissário não sabia que estava falando com o próprio Richard Grayson, uma vez que Bruce havia inventado toda uma história mirabolante sobre um de seus parceiros estar se disfarçando como o policial rebaixado, mas a solidariedade que ele ofereceu a Dick foi a que se estende a colega policial, e não a um vigilante. Dick lhe disse que daria conta. Diabo, era a Arlequina. Tim poderia lidar com a Arlequina.

Tem alguma coisa acontecendo — ele disse, de repente, numa bem-vinda distração do falatório de Clemens. Fingindo coçar a orelha, Dick ajustou melhor o comunicador em seu ouvido e escutou: — Alguém está tentando hackear o circuito interno da UCH.

Tim não gostava de comer cadeira, mas sem Barbara para fazer a cobertura virtual da operação ele era a escolha ideal. O silêncio dele pela maior parte daquela noite fez com que Dick pensasse que o irmão estava jogando videogame em vez de trabalhar, de modo que a notícia preocupante veio sublinhada com o alívio de não estar realmente sozinho.

Seja lá quem for, não é muito bom — Tim parecia satisfeito consigo mesmo. Riu alto. — Que tipo de idiota tenta invadir um sistema governamental sem nenhuma proteção de rastro?

Dick continuou a dirigir com calma, mas seus dedos apertaram o volante com força. Ele estava no fim do comboio, um lugar apropriado para um policial rebaixado, e por isso tinha uma boa visão do camburão onde o Coringa estava sendo transportado. As portas duplas do automóvel exerciam um efeito magnético sobre os olhos de Dick, e ele passou a viagem esperando que elas se abrissem para revelar uma carnificina do lado de dentro. Bruce uma vez contou a Dick que o Coringa só havia matado Jason porque Jason era desrespeitoso, “rude”; que nem ele próprio nem Tim correram esse risco porque eram diferentes. A missão daquela noite reforçou a ideia que Dick nunca havia realmente lidado com o Coringa. Não da forma como seu pai adotivo tinha lidado, não da forma como Jason tinha lidado. Naquela noite, se o Coringa fugisse, ele veria Dick como um policial qualquer. Todo mundo sabe o que o Coringa faz com policiais.

Rastreando — Tim anunciou, triunfante. — Bom, isso foi fácil. A Arlequina tem um Ph.D., não tem? Eu esperava mais. Será que...? — Ele se interrompeu. — Está aí. Com vocês.

Dick se ouviu perguntando “O quê?” antes que o mundo virasse de ponta-cabeça com um estrondo ensurdecedor.

***

— Você nunca lidou com o Slade — Bruce declarou, esperando não ofender o orgulho frágil de Jason. — É importante que você saiba que ele não é um mercenário qualquer.

De braços cruzados ao seu lado, Jason inclinou o capacete para o lado e foi quase possível enxergar seus olhos se revirando por baixo dele. Estavam no sétimo ponto de vantagem escolhido pelos atiradores, e o último deles jazia amarrado e desacordado aos seus pés. Jason havia conduzido a interrogação dele, que para a surpresa de Bruce foi muito menos agressiva do que poderia ter sido, e graças a ela confirmaram que não havia mais snipers com que se preocupar. Isso resolvia o problema da polícia.

— Slade treinou nos mesmos lugares que eu — Bruce revelou. — Ra’s Al Ghul, Richard Dragon, David Cain... Toda a velha-guarda. Diferente de mim, ele usa tudo o que aprendeu, o que significa força letal. Treinei você para enfrentar homens como ele, mas sei que não pode vencê-lo porque eu mesmo não conseguiria na maior parte do tempo. Precisamos ser mais espertos que ele, não mais fortes. Entendeu?

— Você sabe que o Ra’s me treinou por um tempo, né?

Bruce encarou o filho adotivo:

— “Por um tempo”.

— Não, sério — ele acompanhou Bruce quando este disparou seu gancho na parede sul da estação de metrô, ancorando a extremidade de cá do cabo no terraço. Ambos trabalharam no encaixe dos arneses com a praticidade de anos de treino. — Ele ficou impressionado. Disse que eu daria um ótimo aprendiz.

— Foi por isso que você fugiu de lá?

— Cala a boca.

Eles desceram fora do alcance dos holofotes pela tirolesa improvisada e, uma vez na parede oposta, usaram a sombra de um dirigível que passava para escalar até o terraço da estação. Mercenários, todos trazendo a insígnia de Slade Wilson em seus braços esquerdos, patrulhavam a área. Jason moveu-se primeiro, ávido, e apagou o soldado mais próximo com um mata-leão encaixado para quebrar pescoços. Bruce cuidou do seguinte, quebrando seu braço na hora de desarmá-lo. Pai e filho neutralizaram a ameaça em questão de minutos, sem fazer um ruído sequer, e Bruce se viu impressionado com a proficiência de Jason. Por mais inapropriada que fosse, tanta agressividade o fazia um combatente melhor que os demais irmãos.

Encaixando o cabo USB retrátil de sua luva no fundo do rádio de um dos guardas desacordados, Bruce o configurou para repetir as últimas palavras faladas nele em intervalos regulares de cinco minutos. Isso dava à dupla cerca de vinte até que Slade percebesse, talvez menos.

— Jason Todd, Herdeiro do Demônio — Bruce murmurou. — Está aí uma coisa que eu gostaria de ver.

— Cala a boca, coroa — Jason afetou irritação, mas havia riso em sua voz sintetizada.

Enquanto eles se dirigiam para a entrada do sistema de ventilação da estação, um estrondo ecoou grave pela noite de Gotham. Bruce não precisou situar de onde ele vinha para saber que o transporte do Coringa estava sendo atacado. Jason soltou um assovio baixo.

— Quando Dick morrer — ele disse, ainda risonho —, vai pedir pro Ra’s trazer ele de volta também?

***

PeloamordeDeusDickfalacomigo.

A voz vinha de longe, e as palavras se confundiam devido à velocidade com que eram proferidas. Dick abriu os olhos devagar, certo de que não estava morto devido à intensidade da dor por todo seu corpo, e se viu no fundo de uma cratera escavada no asfalto. O carro tinha tombado de cabeça para baixo e, ao seu lado, o cadáver de um Clemens que não estava usando cinto de segurança jazia com uma expressão de “Cara” permanente no rosto. Dick fez uma careta, responsabilidade pela morte do colega crescendo em seu peito, e destravou seu cinto. Ele caiu no chão, que agora era forrado com o teto do carro, e depois de pegar o cassetete do defunto rastejou para o lado de fora através da janela quebrada.

Dick! — Tim berrava no comunicador. — Dick, você tá aí? Diabo, eu tô indo aí.

— Não — Dick murmurou, usando o cassetete para se erguer do chão. Ao seu redor, sons de uma guerra começaram a entrar em foco: tiros, explosões, gritos de dor e alegria. A risada estridente de Arlequina ecoava pela noite, mais alta que todo o resto. — Não, fique aí. Eu estou bem.

Um suspiro de alívio chiou através do microfone na orelha de Dick.

Caramba — Tim arquejou. — Certo, ufa. Tudo bem. O que aconteceu? O rádio da polícia só me dá pedidos de socorro. O Coringa fugiu?

A pergunta despertou Dick de seu transe. Ele escalou a cratera onde seu carro tinha caído e por pouco não caiu em outra, essa muito mais profunda: um buraco colossal onde o resto do comboio tinha despencado. Olhando ao redor, Dick viu os poucos policiais da SWAT restantes se defendendo numa barricada improvisada ao redor do camburão tombado, que estava do outro lado do fosso. Capangas do Coringa cercavam os policiais de todos os lados, todos armados até os dentes, e a própria Arlequina, aos risos, coordenava suas tropas do teto de uma viatura. O camburão, para o alívio de Dick, permanecia fechado.

— Ela explodiu o asfalto — ele informou a Tim. — Enterrou todo o nosso contingente vivo. O Coringa ainda está preso, mas não por muito tempo. Está uma zona de guerra.

E você não quer que eu venha?

— Nem você conseguiria chegar aqui a tempo — Dick encaixou o cassetete de Clemens em seu cinto e arregaçou as mangas de seu uniforme. — Preciso que ajude como puder daí. Repasse as informações que lhe dei ao Gordon, tente entrar em contato com o Jason e a Barbara para organizar uma busca.

A cratera em frente a Dick esperava, desafiadora, enquanto ele decidia como iria tentar cruzá-la. O local da emboscada não poderia ter sido melhor escolhido – o túnel oferecia proteção da vigilância aérea e impedia que os reforços simplesmente arrodeassem o fosso cavado com explosivos. A violência da detonação fora tanta que cabos de eletricidade haviam se soltado do teto do túnel.

Cabos?

O mais próximo estava a seis, sete metros de distância. Dick andou alguns passos para trás, quase do lado de fora do túnel, e as primeiras viaturas de reforço já estavam chegando quando ele disparou de volta para dentro. Dick ouviu alguém chamando-o de maluco ao saltar, mas depois disso toda a sua concentração resumiu-se ao cabo de eletricidade em suas mãos. Ele se balançou com a familiaridade que nunca tinha desvanecido, tomou impulso e se lançou para o alto e para a frente, aterrissando com um floreio inconsciente. Achou que estavam aplaudindo, mas depois percebeu que os capangas do Coringa começaram a atirar.

Dick sacou seu próprio cassetete, assim como o que pegara emprestado de Clemens, e os colocou em bom uso. Balas eram mais rápidas, sim, mas o talento para dispará-las não existia em muitos dos ex-detentos do Arkham. Dick desviou uma saraivada de balas enquanto corria, saltou deslizando por sobre o capô de uma viatura e acertou o criminoso mais próximo com um safanão do cassetete. O sujeito caiu como um saco de batatas, assustando os mais próximos, e daí em diante foi só uma questão de administrar bem os golpes.

Aproveitando-se da distração causada por Dick, os policiais da SWAT voltaram a atirar. Imprensados entre as baladas deles e os cassetetes de Dick, os capangas do Coringa quebraram a formação apesar dos gritos indignados de Arlequina. Não demorou até que os primeiros criminosos começassem a fugir.

— Voltem aqui, seus imprestáveis!

Arlequina sapateava no teto da viatura, dando um verdadeiro show de pirraça infantil. Ela estava vestida em seu traje clássico, o que talvez tenha sido um erro porque o spandex vermelho e preto tinha ficado pequeno demais. O rosto maquiado era um borrão de lágrimas coloridas, e ela brandiu inutilmente a marreta de madeira que segurava quando Dick se aproximou. Ele agarrou a arma pelo cabo, sacudindo-a para derrubar Arlequina, e a virou de borco no chão para algemá-la.

— Vamos lá, Harley — Dick pressionou o joelho nas costas dela com firmeza. — Não é do seu feitio fazer esse tipo de coisa sem um plano B. Tem mais explosivos do outro lado do túnel? Na estação de trem?

Arlequina virou o rosto, confusa, para encarar melhor o homem que a algemava:

— Explosivos?

Um braço cinzento surgiu da cratera – um braço do tamanho de um pônei. Solomon Grundy ergueu-se do buraco, seus cabelos brancos quase tocando o teto do túnel, vestindo um terno em farrapos que em vez de gravata tinha o nó de uma forca. O topo de suas costas, visível devido à postura recurvada do monstro, estava cravejado de objetos pontiagudos como facas, tesouras e cacos de vidro. Carne exposta pelas feridas resultantes era de um tom ligeiramente mais escuro do cinza de sua pele, sem sangue algum. O rosto terrível da criatura, uma imitação zumbificada da face de um homem, rugiu ao perceber os policiais da SWAT.

Dick terminou de algemar a Arlequina e praguejou baixinho. Ele acompanhou, paralisado de terror, enquanto Solomon avançava por sobre e através das viaturas até o camburão. Que uma coisa tão terrível de se olhar fosse capaz de se mover tão rápido era difícil de aceitar.

É verdade? O Solomon Grundy está aí?

Mais uma vez, a voz de Tim despertou Dick para a realidade da situação. Enquanto ele procurava no interior das viaturas próximas, ouviu gritos e baques secos de policiais sendo lançados pelos ares. A urgência não deu tempo para que Dick se preparasse melhor; ele pegou a primeira escopeta que viu, enfiou munição extra nos bolsos e, mirando na cabeça de Solomon, atirou.

Bruce detestaria ouvir falar naquilo, era verdade, mas Dick não tinha qualquer apetrecho à disposição e, a bem da verdade, Solomon não estava realmente vivo. O disparou não fez muito estrago, mas chamou a atenção do monstro; Dick correu para o sentido oposto do túnel, esperando atrair o monstro para o lado de fora. O plano funcionou bem demais.

Dick mal chegou a alcançar o lado de fora quando as costas de uma mão gigantesca o atingiram por trás, lançando-o rolando pelo asfalto. Canalizando seu Jason Todd interior, ele firmou a espingarda nas mãos e atirou mais uma vez no rosto da criatura. Dessa vez, provavelmente pela distância reduzida, os projéteis a fizeram recuar. Esse pequeno momento de recuo, que não durou mais do que dois segundos, foi tudo que o suporte aéreo precisou para preparar a metralhadora. Solomon foi despedaçado pelo alto calibre da arma numa chuva de chumbo. Seus braços cinzentos foram decepados primeiro quando ele os ergueu para se proteger, e então foi a vez da cabeça quadrada explodir como uma abóbora podre. O corpanzil do monstro despencou de costas com um estrondo, e só muito depois disso a metralhadora do helicóptero parou de atirar.

Dick se pôs de pé com dificuldade. Alguma coisa tinha se quebrado dentro dele, mas a noção de que um par de algemas não seria capaz de impedir a Arlequina por muito tempo o motivou a entrar pelo túnel novamente. À distância, sirenes ecoavam. Ele tinha cumprido sua missão.

Todos os policiais da SWAT estavam mortos. Dick quase tirou um momento para lamentar, mas então percebeu que a causa da morte eram cortes na garganta, e não esmagamento pelas mãos de Solomon Grundy. Sentindo um frio no estômago, Dick cambaleou até as portas do fundo do camburão e foi levado ao chão por uma marretada direto em seu nariz. Ele lutou para reter a consciência, sua visão reduzida a pontos de luz e cor no centro de uma escuridão que se espalhava, e através desses pontos ele viu Arlequina sair do camburão. A vilã se movia triunfante, e trazia pela mão o Coringa.

O Príncipe Palhaço do Crime não se parecia consigo mesmo. Sim, a pele extremamente branca e o cabelo verde estavam ali, assim como as cicatrizes nos lábios, mas algo em sua postura assustada e a falta de loucura em seu olhar faziam com que parecesse uma pessoa completamente diferente. Ele aparentava temer Arlequina, e deixava a mão dentro da dela com um tremor visível. Quando ela puxou a arma de um policial morto, o Coringa recuou como se fosse ele o alvo dela.

Se achava estranho o comportamento de seu chefe, a Arlequina não demonstrou. Ela entregou a pistola ao Coringa com uma vênia e sinalizou Dick como se fosse um presente dela. Zonzo e dolorido, incapacitado pelo que agora sabia ser costelas quebradas, Dick não conseguiu esboçar uma reação melhor que um gemido cheio de saliva entre os dentes. Jason, ele pensou, tinha morrido melhor.

Para não deixar que aquele ruivo marrento fosse seu último pensamento, Dick pensou em Barbara.

***

Jason não conseguia parar de rir. Ele estava com Bruce no topo da escadaria dupla da estação de metrô, ambos observando a ação policial para resgatar os reféns e apreender os criminosos, e a risada eletrônica propagada por seu capacete chamava a atenção de todos os envolvidos.

— “Ele é tão difícil” — Jason gargalhava. — “Cuidado, o Ra’s Al Ghul treinou ele”.

Bruce, que estava genuinamente grato por Jason ter sobrevivido à experiência, não conseguiu reunir a presença de espírito para censurá-lo pela arrogância. Slade não tinha sido pago para lutar com o Batman naquela noite, apenas para ganhar tempo; ele deixou a estação sem que nem Bruce nem Jason percebesse, facilitando o trabalho de eliminar a ameaça de seus mercenários. Isso mais preocupava Bruce do que aliviava, e ele ruminou as ramificações do acontecido de si para si enquanto Jason ria.

Bruce — a voz de Tim surgiu no comunicador, de repente. Ele vinha atualizando Bruce nos acontecimentos da noite, de modo que nada de novo havia na preocupação em sua voz. — Solomon Grundy foi neutralizado pela polícia, mas Dick não responde.

— Arlequina? Coringa? — Bruce quis saber, erguendo a mão para pedir que Jason ficasse quieto.

— Status não-confirmado em ambos. O reforço está chegando ao local agora.

Bruce sinalizou a Jason que estavam de saída, e o filho adotivo inclinou a cabeça inquisitivamente. Eles desceram pelas escadas, passando pelos policiais às portas da estação, e usaram os guinchos para ganhar altitude. Bruce pediu para que Tim controlasse o carro remotamente e o trouxesse para perto, ignorando o pedido de Jason para dirigir.

Certo — Tim disse, fazendo uma pausa súbita. — Ah, meu Deus.

Bruce continuou correndo pelos telhados, ciente de que gritar com Tim para que ele dissesse o que foi não adiantaria de nada. Sua mandíbula travou tão forte que ele sentiu dor nos dentes.

O Coringa, Bruce — veio o resto da notícia. — Ele atirou na Arlequina.

[Você pode acompanhar essa história no Nyah! e no Archive of Our Own]

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