—
Você não precisa ir — Gordon disse, a incerteza em sua voz traindo mentira. — O
lugar já foi cercado, e nosso melhor negociador já está chegando lá...
Bruce
o interrompeu com um olhar que, imaginava, sua máscara impedia de ser qualquer
coisa que não ameaçador. Quinze anos haviam se passado desde que conhecera
Gordon mas, apesar do grisalho nas têmporas ruivas dele e do número
exponencialmente maior de rugas por trás das lentes grossas de seus óculos, a
insistência dele em tratar Bruce como um policial nunca mudou.
O
topo do prédio da Unidade de Crimes Hediondos estava particularmente frio
naquela noite e, com o holofote ainda ligado atrás deles, não era difícil ver
as nuvens de vapor criadas pela respiração do comissário. Tanto frio no verão,
segundo dizia o folclore de Gotham, queria dizer que Solomon Grundy estava
dando um passeio fora de sua cova. Uma lufada de ar empurrou a capa de Bruce
para a frente, e o tecido estalou contra si próprio ao ondular no vento. Ele não queria se preocupar com Grundy. Não
naquela noite.
Gordon
suspirou e acendeu um cigarro.
—
É uma distração — ele constatou, sombrio. — Harley?
—
Quem mais? — Bruce andou até a beirada do terraço e, com um dos pés sobre a
borda, disparou seu gancho numa gárgula próxima. — Me mantenha atualizado. Eu
termino isso o quanto antes.
E
no momento seguinte ele estava no ar, a sombra do traje de morcego
confundindo-se com as densas trevas que entremeavam os arranha-céus de Gotham.
Parte planando, parte corrigindo seu curso com o gancho, Bruce observou a
cidade desenrolar-se abaixo dele com a mesma admiração melancólica com que a
observou em seu jatinho ao voltar para a cidade quinze anos antes. Daquela
altura, era fácil amar Gotham. Não era possível sentir o cheiro das sarjetas e
becos, não era preciso ficar atento às sombras de assaltantes se aproximando e
a arquitetura não parecia velha e decrépita; de onde Bruce estava, só se podia
ver o desenho gótico dos prédios mais antigos e a teia feita de matizes de cor
traçada pela iluminação pública e privada. Ele se pegou pensando se aquela era
a versão idealizada da cidade que seu pai havia morrido defendendo, a versão
que era visível da sacada de seu antigo escritório na Torre Wayne.
Bruce
aterrissou rolando no topo de um prédio de condomínio e sacou o binóculo de um
compartimento em seu cinto de utilidades. Abaixo, uma quadra à frente, estava a
estação de metrô. Ao redor dela, todo o tráfego de veículos havia sido
bloqueado pela polícia. Eram tantas viaturas estacionadas ao redor do prédio
que uma alternância estroboscópica de vermelho e azul praticamente mudava a cor
da fachada. Do lado de dentro, mesmo utilizando o máximo de zoom do aparelho,
Bruce não conseguiu ver nenhum dos criminosos – sinal de que estavam muito bem posicionados.
Ele conseguiu, entretanto, uma boa visão dos reféns: homens, mulheres e
crianças amordaçados, amarrados de joelhos e com os dizeres “Soltem o Coringa”
escritos em papel e colados em seus peitos. Bruce quase planou de encontro à
ação, mas uma sensação estranha o impediu. Havia qualquer coisa familiar naquela
situação.
Mesmo
sem esperanças de encontrar alguma coisa, Bruce direcionou seu binóculo para um
prédio próximo. Era um dos únicos pontos de vantagem da região, o único
edifício mais alto que o condomínio daquele lado da quadra, e havia um homem
deitado na beirada do terraço dele. Não, não simplesmente deitado; mirando um
rifle de precisão na direção da estação de trem. Uma rápida varredura ao redor
revelou que aquele atirador não era o único; haviam mais sete dispostos em
prédios altos das redondezas, todos mirando a multidão de policiais que
acumulava-se ao redor da estação de trem. Aquilo
não era coisa da Arlequina.
Prendendo
o gancho na parede do prédio vizinho, Bruce o escalou até o terraço. O atirador
não percebeu a presença dele, coisa que não conseguiria fazer mesmo se não
estivesse completamente absorto no escopo de sua mira. Bruce se aproximou dele
devagar, tentando absorver pequenos detalhes em seu traje militar para
identificá-lo sem precisar de um interrogatório, e bem quando decidiu fazer o
bote o homem caiu.
Esquecendo-se
momentaneamente de como abafar o som de seus passos, Bruce correu até a beirada
do terraço bem a tempo de ver o atirador, já desacordado, ser pendurado pelo
tornozelo à parede do prédio. O capacete escarlate de Jason subiu por onde o
homem tinha caído, e o silêncio subsequente foi constrangedor.
—
Achei que estivesse cuidando do comboio de escolta — Jason disse, enfim. A voz
pesadamente modificada pelos sistemas cibernéticos do capuz traía irritação.
Ele se virou para voltar por onde tinha vindo. — Bom, já que está aqui, você
cuida disso.
—
Não seja infantil — Bruce censurou-o. — Vou precisar da sua ajuda.
Jason
parou, um pé já no vazio, e virou a face inexpressiva do capacete na direção do
pai adotivo:
—
É uma situação com reféns. O Batman cuida disso.
—
O Batman pode cuidar dos capangas, sim — Bruce enrijeceu a voz, apelando para
os anos de treinamento e disciplina que tornaram Jason incapaz de resistir a um
comando de seu mestre. — Mas não deles e
de Slade Wilson. Parece que a Arlequina terceirizou.
***
—
Cara — Clemens estava começando a
irritar pelo modo como enfatizava a palavra —, quem você irritou pra ser
rebaixado e transferido ao mesmo
tempo?
Dick
sorriu para ele, querendo socá-lo nos dentes, e deu de ombros inocentemente.
Pelo menos, pensava, tinha ficado com o volante; confiar no colega para dirigir
a viatura seria esperar demais da paciência do recém-rebaixado oficial Grayson.
Ele entendia que a situação com o Coringa era urgente, mas ainda assim não era
capaz de perdoar Bruce por inventar aquela história de transferência; qualquer
outra desculpa, de preferência uma que não envolvesse sua completa humilhação
profissional, seria melhor.
O
uniforme azul parecia desconfortável e limitante depois de meses acostumado com
a liberdade indumentária de detetive; o quepe estava acabando com seu cabelo;
Clemens era irritante. A única coisa que faltava para que aquela noite fosse um
completo desastre era que chovesse, o que a julgar pelo frio estava prestes a
acontecer. Ah, isso e o Coringa fugir. Claro.
Notícias
sobre os reféns no metrô chegaram ao mesmo tempo em que os demais policiais da
força-tarefa se reuniam para rir do colega recém-transferido que calhava de ser
filho adotivo do milionário mais odiado da cidade. Os homens se revezavam
fazendo comentários maldosos sobre dinheiro não comprar uma boa carreira quando
chegou a notícia que o Batman não serviria de reforço durante o transporte do
prisioneiro – que foi como os oficiais racionalizaram, acertadamente, que a
situação do outro lado da cidade os afetaria. O próprio Gordon, mais tarde,
viria até Dick para perguntar se ele conseguiria segurar a barra sozinho. O
comissário não sabia que estava falando com o próprio Richard Grayson, uma vez
que Bruce havia inventado toda uma história mirabolante sobre um de seus
parceiros estar se disfarçando como o policial rebaixado, mas a solidariedade
que ele ofereceu a Dick foi a que se estende a colega policial, e não a um
vigilante. Dick lhe disse que daria conta. Diabo, era a Arlequina. Tim poderia
lidar com a Arlequina.
—
Tem alguma coisa acontecendo — ele
disse, de repente, numa bem-vinda distração do falatório de Clemens. Fingindo
coçar a orelha, Dick ajustou melhor o comunicador em seu ouvido e escutou: — Alguém está tentando hackear o circuito
interno da UCH.
Tim
não gostava de comer cadeira, mas sem Barbara para fazer a cobertura virtual da
operação ele era a escolha ideal. O silêncio dele pela maior parte daquela
noite fez com que Dick pensasse que o irmão estava jogando videogame em vez de
trabalhar, de modo que a notícia preocupante veio sublinhada com o alívio de
não estar realmente sozinho.
—
Seja lá quem for, não é muito bom —
Tim parecia satisfeito consigo mesmo. Riu alto. — Que tipo de idiota tenta invadir um sistema governamental sem nenhuma
proteção de rastro?
Dick
continuou a dirigir com calma, mas seus dedos apertaram o volante com força.
Ele estava no fim do comboio, um lugar apropriado para um policial rebaixado, e
por isso tinha uma boa visão do camburão onde o Coringa estava sendo
transportado. As portas duplas do automóvel exerciam um efeito magnético sobre
os olhos de Dick, e ele passou a viagem esperando que elas se abrissem para
revelar uma carnificina do lado de dentro. Bruce uma vez contou a Dick que o
Coringa só havia matado Jason porque Jason era desrespeitoso, “rude”; que nem
ele próprio nem Tim correram esse risco porque eram diferentes. A missão
daquela noite reforçou a ideia que Dick nunca havia realmente lidado com o
Coringa. Não da forma como seu pai adotivo tinha lidado, não da forma como
Jason tinha lidado. Naquela noite, se o Coringa fugisse, ele veria Dick como um
policial qualquer. Todo mundo sabe o que o Coringa faz com policiais.
—
Rastreando — Tim anunciou,
triunfante. — Bom, isso foi fácil. A
Arlequina tem um Ph.D., não tem? Eu esperava mais. Será que...? — Ele se
interrompeu. — Está aí. Com vocês.
Dick
se ouviu perguntando “O quê?” antes que o mundo virasse de ponta-cabeça com um
estrondo ensurdecedor.
***
—
Você nunca lidou com o Slade — Bruce declarou, esperando não ofender o orgulho
frágil de Jason. — É importante que você saiba que ele não é um mercenário
qualquer.
De
braços cruzados ao seu lado, Jason inclinou o capacete para o lado e foi quase
possível enxergar seus olhos se revirando por baixo dele. Estavam no sétimo ponto
de vantagem escolhido pelos atiradores, e o último deles jazia amarrado e
desacordado aos seus pés. Jason havia conduzido a interrogação dele, que para a
surpresa de Bruce foi muito menos agressiva do que poderia ter sido, e graças a
ela confirmaram que não havia mais snipers
com que se preocupar. Isso resolvia o problema da polícia.
—
Slade treinou nos mesmos lugares que eu — Bruce revelou. — Ra’s Al Ghul,
Richard Dragon, David Cain... Toda a velha-guarda. Diferente de mim, ele usa tudo o que aprendeu, o que significa
força letal. Treinei você para enfrentar homens como ele, mas sei que não pode
vencê-lo porque eu mesmo não conseguiria na maior parte do tempo. Precisamos
ser mais espertos que ele, não mais fortes. Entendeu?
—
Você sabe que o Ra’s me treinou por um tempo, né?
Bruce
encarou o filho adotivo:
—
“Por um tempo”.
—
Não, sério — ele acompanhou Bruce quando este disparou seu gancho na parede sul
da estação de metrô, ancorando a extremidade de cá do cabo no terraço. Ambos
trabalharam no encaixe dos arneses com a praticidade de anos de treino. — Ele
ficou impressionado. Disse que eu daria um ótimo aprendiz.
—
Foi por isso que você fugiu de lá?
—
Cala a boca.
Eles
desceram fora do alcance dos holofotes pela tirolesa improvisada e, uma vez na
parede oposta, usaram a sombra de um dirigível que passava para escalar até o
terraço da estação. Mercenários, todos trazendo a insígnia de Slade Wilson em
seus braços esquerdos, patrulhavam a área. Jason moveu-se primeiro, ávido, e
apagou o soldado mais próximo com um mata-leão encaixado para quebrar pescoços.
Bruce cuidou do seguinte, quebrando seu braço na hora de desarmá-lo. Pai e
filho neutralizaram a ameaça em questão de minutos, sem fazer um ruído sequer,
e Bruce se viu impressionado com a proficiência de Jason. Por mais inapropriada
que fosse, tanta agressividade o fazia um combatente melhor que os demais
irmãos.
Encaixando
o cabo USB retrátil de sua luva no fundo do rádio de um dos guardas
desacordados, Bruce o configurou para repetir as últimas palavras faladas nele
em intervalos regulares de cinco minutos. Isso dava à dupla cerca de vinte até
que Slade percebesse, talvez menos.
—
Jason Todd, Herdeiro do Demônio — Bruce murmurou. — Está aí uma coisa que eu
gostaria de ver.
—
Cala a boca, coroa — Jason afetou irritação, mas havia riso em sua voz
sintetizada.
Enquanto
eles se dirigiam para a entrada do sistema de ventilação da estação, um
estrondo ecoou grave pela noite de Gotham. Bruce não precisou situar de onde
ele vinha para saber que o transporte do Coringa estava sendo atacado. Jason
soltou um assovio baixo.
—
Quando Dick morrer — ele disse, ainda risonho —, vai pedir pro Ra’s trazer ele
de volta também?
***
—
PeloamordeDeusDickfalacomigo.
A
voz vinha de longe, e as palavras se confundiam devido à velocidade com que
eram proferidas. Dick abriu os olhos devagar, certo de que não estava morto
devido à intensidade da dor por todo seu corpo, e se viu no fundo de uma
cratera escavada no asfalto. O carro tinha tombado de cabeça para baixo e, ao
seu lado, o cadáver de um Clemens que não estava usando cinto de segurança
jazia com uma expressão de “Cara”
permanente no rosto. Dick fez uma careta, responsabilidade pela morte do colega
crescendo em seu peito, e destravou seu cinto. Ele caiu no chão, que agora era
forrado com o teto do carro, e depois de pegar o cassetete do defunto rastejou
para o lado de fora através da janela quebrada.
—
Dick! — Tim berrava no comunicador. —
Dick, você tá aí? Diabo, eu tô indo aí.
—
Não — Dick murmurou, usando o cassetete para se erguer do chão. Ao seu redor,
sons de uma guerra começaram a entrar em foco: tiros, explosões, gritos de dor
e alegria. A risada estridente de Arlequina ecoava pela noite, mais alta que
todo o resto. — Não, fique aí. Eu estou bem.
Um
suspiro de alívio chiou através do microfone na orelha de Dick.
—
Caramba — Tim arquejou. — Certo, ufa. Tudo bem. O que aconteceu? O
rádio da polícia só me dá pedidos de socorro. O Coringa fugiu?
A
pergunta despertou Dick de seu transe. Ele escalou a cratera onde seu carro
tinha caído e por pouco não caiu em outra, essa muito mais profunda: um buraco
colossal onde o resto do comboio tinha despencado. Olhando ao redor, Dick viu
os poucos policiais da SWAT restantes se defendendo numa barricada improvisada
ao redor do camburão tombado, que estava do outro lado do fosso. Capangas do
Coringa cercavam os policiais de todos os lados, todos armados até os dentes, e
a própria Arlequina, aos risos, coordenava suas tropas do teto de uma viatura.
O camburão, para o alívio de Dick, permanecia fechado.
—
Ela explodiu o asfalto — ele informou a Tim. — Enterrou todo o nosso
contingente vivo. O Coringa ainda está preso, mas não por muito tempo. Está uma
zona de guerra.
—
E você não quer que eu venha?
—
Nem você conseguiria chegar aqui a tempo — Dick encaixou o cassetete de Clemens
em seu cinto e arregaçou as mangas de seu uniforme. — Preciso que ajude como
puder daí. Repasse as informações que lhe dei ao Gordon, tente entrar em
contato com o Jason e a Barbara para organizar uma busca.
A
cratera em frente a Dick esperava, desafiadora, enquanto ele decidia como iria
tentar cruzá-la. O local da emboscada não poderia ter sido melhor escolhido – o
túnel oferecia proteção da vigilância aérea e impedia que os reforços
simplesmente arrodeassem o fosso cavado com explosivos. A violência da
detonação fora tanta que cabos de eletricidade haviam se soltado do teto do
túnel.
Cabos?
O
mais próximo estava a seis, sete metros de distância. Dick andou alguns passos
para trás, quase do lado de fora do túnel, e as primeiras viaturas de reforço
já estavam chegando quando ele disparou de volta para dentro. Dick ouviu alguém
chamando-o de maluco ao saltar, mas depois disso toda a sua concentração
resumiu-se ao cabo de eletricidade em suas mãos. Ele se balançou com a
familiaridade que nunca tinha desvanecido, tomou impulso e se lançou para o
alto e para a frente, aterrissando com um floreio inconsciente. Achou que
estavam aplaudindo, mas depois percebeu que os capangas do Coringa começaram a
atirar.
Dick
sacou seu próprio cassetete, assim como o que pegara emprestado de Clemens, e
os colocou em bom uso. Balas eram mais rápidas, sim, mas o talento para
dispará-las não existia em muitos dos ex-detentos do Arkham. Dick desviou uma
saraivada de balas enquanto corria, saltou deslizando por sobre o capô de uma
viatura e acertou o criminoso mais próximo com um safanão do cassetete. O
sujeito caiu como um saco de batatas, assustando os mais próximos, e daí em
diante foi só uma questão de administrar bem os golpes.
Aproveitando-se
da distração causada por Dick, os policiais da SWAT voltaram a atirar.
Imprensados entre as baladas deles e os cassetetes de Dick, os capangas do
Coringa quebraram a formação apesar dos gritos indignados de Arlequina. Não
demorou até que os primeiros criminosos começassem a fugir.
—
Voltem aqui, seus imprestáveis!
Arlequina
sapateava no teto da viatura, dando um verdadeiro show de pirraça infantil. Ela
estava vestida em seu traje clássico, o que talvez tenha sido um erro porque o spandex vermelho e preto tinha ficado
pequeno demais. O rosto maquiado era um borrão de lágrimas coloridas, e ela
brandiu inutilmente a marreta de madeira que segurava quando Dick se aproximou.
Ele agarrou a arma pelo cabo, sacudindo-a para derrubar Arlequina, e a virou de
borco no chão para algemá-la.
—
Vamos lá, Harley — Dick pressionou o joelho nas costas dela com firmeza. — Não
é do seu feitio fazer esse tipo de coisa sem um plano B. Tem mais explosivos do
outro lado do túnel? Na estação de trem?
Arlequina
virou o rosto, confusa, para encarar melhor o homem que a algemava:
—
Explosivos?
Um
braço cinzento surgiu da cratera – um braço do tamanho de um pônei. Solomon
Grundy ergueu-se do buraco, seus cabelos brancos quase tocando o teto do túnel,
vestindo um terno em farrapos que em vez de gravata tinha o nó de uma forca. O
topo de suas costas, visível devido à postura recurvada do monstro, estava cravejado
de objetos pontiagudos como facas, tesouras e cacos de vidro. Carne exposta
pelas feridas resultantes era de um tom ligeiramente mais escuro do cinza de
sua pele, sem sangue algum. O rosto terrível da criatura, uma imitação
zumbificada da face de um homem, rugiu ao perceber os policiais da SWAT.
Dick
terminou de algemar a Arlequina e praguejou baixinho. Ele acompanhou,
paralisado de terror, enquanto Solomon avançava por sobre e através das
viaturas até o camburão. Que uma coisa tão terrível de se olhar fosse capaz de
se mover tão rápido era difícil de aceitar.
—
É verdade? O Solomon Grundy está aí?
Mais
uma vez, a voz de Tim despertou Dick para a realidade da situação. Enquanto ele
procurava no interior das viaturas próximas, ouviu gritos e baques secos de
policiais sendo lançados pelos ares. A urgência não deu tempo para que Dick se
preparasse melhor; ele pegou a primeira escopeta que viu, enfiou munição extra
nos bolsos e, mirando na cabeça de Solomon, atirou.
Bruce
detestaria ouvir falar naquilo, era verdade, mas Dick não tinha qualquer
apetrecho à disposição e, a bem da verdade, Solomon não estava realmente vivo.
O disparou não fez muito estrago, mas chamou a atenção do monstro; Dick correu
para o sentido oposto do túnel, esperando atrair o monstro para o lado de fora.
O plano funcionou bem demais.
Dick
mal chegou a alcançar o lado de fora quando as costas de uma mão gigantesca o
atingiram por trás, lançando-o rolando pelo asfalto. Canalizando seu Jason Todd
interior, ele firmou a espingarda nas mãos e atirou mais uma vez no rosto da
criatura. Dessa vez, provavelmente pela distância reduzida, os projéteis a
fizeram recuar. Esse pequeno momento de recuo, que não durou mais do que dois
segundos, foi tudo que o suporte aéreo precisou para preparar a metralhadora.
Solomon foi despedaçado pelo alto calibre da arma numa chuva de chumbo. Seus
braços cinzentos foram decepados primeiro quando ele os ergueu para se
proteger, e então foi a vez da cabeça quadrada explodir como uma abóbora podre.
O corpanzil do monstro despencou de costas com um estrondo, e só muito depois
disso a metralhadora do helicóptero parou de atirar.
Dick
se pôs de pé com dificuldade. Alguma coisa tinha se quebrado dentro dele, mas a
noção de que um par de algemas não seria capaz de impedir a Arlequina por muito
tempo o motivou a entrar pelo túnel novamente. À distância, sirenes ecoavam.
Ele tinha cumprido sua missão.
Todos
os policiais da SWAT estavam mortos. Dick quase tirou um momento para lamentar,
mas então percebeu que a causa da morte eram cortes na garganta, e não
esmagamento pelas mãos de Solomon Grundy. Sentindo um frio no estômago, Dick
cambaleou até as portas do fundo do camburão e foi levado ao chão por uma
marretada direto em seu nariz. Ele lutou para reter a consciência, sua visão
reduzida a pontos de luz e cor no centro de uma escuridão que se espalhava, e
através desses pontos ele viu Arlequina sair do camburão. A vilã se movia
triunfante, e trazia pela mão o Coringa.
O
Príncipe Palhaço do Crime não se parecia consigo mesmo. Sim, a pele
extremamente branca e o cabelo verde estavam ali, assim como as cicatrizes nos
lábios, mas algo em sua postura assustada e a falta de loucura em seu olhar
faziam com que parecesse uma pessoa completamente diferente. Ele aparentava
temer Arlequina, e deixava a mão dentro da dela com um tremor visível. Quando
ela puxou a arma de um policial morto, o Coringa recuou como se fosse ele o
alvo dela.
Se
achava estranho o comportamento de seu chefe, a Arlequina não demonstrou. Ela
entregou a pistola ao Coringa com uma vênia e sinalizou Dick como se fosse um
presente dela. Zonzo e dolorido, incapacitado pelo que agora sabia ser costelas
quebradas, Dick não conseguiu esboçar uma reação melhor que um gemido cheio de
saliva entre os dentes. Jason, ele pensou, tinha morrido melhor.
Para
não deixar que aquele ruivo marrento fosse seu último pensamento, Dick pensou
em Barbara.
***
Jason
não conseguia parar de rir. Ele estava com Bruce no topo da escadaria dupla da
estação de metrô, ambos observando a ação policial para resgatar os reféns e
apreender os criminosos, e a risada eletrônica propagada por seu capacete
chamava a atenção de todos os envolvidos.
—
“Ele é tão difícil” — Jason gargalhava. — “Cuidado, o Ra’s Al Ghul treinou
ele”.
Bruce,
que estava genuinamente grato por Jason ter sobrevivido à experiência, não
conseguiu reunir a presença de espírito para censurá-lo pela arrogância. Slade
não tinha sido pago para lutar com o Batman naquela noite, apenas para ganhar
tempo; ele deixou a estação sem que nem Bruce nem Jason percebesse, facilitando
o trabalho de eliminar a ameaça de seus mercenários. Isso mais preocupava Bruce
do que aliviava, e ele ruminou as ramificações do acontecido de si para si
enquanto Jason ria.
—
Bruce — a voz de Tim surgiu no
comunicador, de repente. Ele vinha atualizando Bruce nos acontecimentos da
noite, de modo que nada de novo havia na preocupação em sua voz. — Solomon Grundy foi neutralizado pela
polícia, mas Dick não responde.
—
Arlequina? Coringa? — Bruce quis saber, erguendo a mão para pedir que Jason
ficasse quieto.
—
Status não-confirmado em ambos. O reforço está chegando ao local
agora.
Bruce
sinalizou a Jason que estavam de saída, e o filho adotivo inclinou a cabeça
inquisitivamente. Eles desceram pelas escadas, passando pelos policiais às
portas da estação, e usaram os guinchos para ganhar altitude. Bruce pediu para
que Tim controlasse o carro remotamente e o trouxesse para perto, ignorando o
pedido de Jason para dirigir.
—
Certo — Tim disse, fazendo uma pausa
súbita. — Ah, meu Deus.
Bruce
continuou correndo pelos telhados, ciente de que gritar com Tim para que ele
dissesse o que foi não adiantaria de nada. Sua mandíbula travou tão forte que
ele sentiu dor nos dentes.
— O Coringa, Bruce — veio o resto da notícia. — Ele atirou na Arlequina.
[Você pode acompanhar essa história no Nyah! e no Archive of Our Own]

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