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Resenha │Who Invited Them

Top Gun: Maverick, Trem-Bala, Fall, Doutor Estranho: Multiverso da Loucura, The Gray Man e Nope: seis. Esse é o número de filmes lançados neste ano de que gostei. O argumento pode ser feito, até certo ponto com validade, que num período que viu o lançamento de centenas de filmes o problema está em mim, e não na indústria; eu mesmo admito o pecado de ainda estar ocupando assistindo clássicos em meu tempo livre, de forma que sobra pouco tempo para ver os contemporâneos. Chega a ser verdade, também, que meu saldo positivo em 2022 excede em muito o do ano preterido — em 2021 eu só consigo me lembrar de dois filmes, Annette e Seánce, que me encantaram o suficiente para que eu gostasse de verdade (excetuando o pipocão impossível de se desgostar do Homem-Aranha, claro). Sim, caro leitor, posso admitir tudo isso e ainda assim professar minha verdade: os anos 20 vêm sendo desinteressantes, chatos e com muito pouco para se gostar no que diz respeito ao cinema.

Talvez sejam os pôsteres. Nunca acreditei no poder de sínteses de sinopses, então, quando um filme não traz no elenco um ator que eu conheça ou é feito por um diretor que me é querido, o pôster sempre vai pesar mais do que qualquer outra coisa na decisão de assistir ou não. E eu não consigo me lembrar de pôsteres bons na era pós-COVID, salvo exceções confirmadoras de regra. Talvez, entretanto, sejam os roteiros. Dizer que eu não assisti filmes lançados entre 2020 e agora seria uma mentira: eu tentei de tudo, sempre que uma estrela ou diretor de meu interesse emprestava seu nome ao marketing — e me vi interrompendo a sessão na metade, quando não antes dos vinte minutos iniciais, devido a diálogos ruins, mensagens políticas mal disfarçadas ou clichês que tentam se passar por ideias originais porque são associados a uma protagonista mulher. Netflix, cinema, televisão... Tudo parecia engessado, corroído por um cansaço que achei ser meu por tempo demais. Talvez, essa é suposição mais fácil de provar, a pandemia tenha causado efeitos mais profundos na produção de cinema do que os simples atrasos.

Já são dois parágrafos comigo ralhando sem dizer coisa com coisa, mas especificar meus problemas com filmes (e séries) feitas para além de 2019 é importante para que o leitor entenda o porquê de eu ter gostado tanto de Who Invited Them: um filme lançado em dois mil e vinte e dois que me enlaçou pela sinopse e me ganhou pelo elenco. É, pela sinopse. O pôster, infelizmente, não é tão bom assim.

Ouvi falar de Who Invited Them por um fórum. O post tinha sido feito por alguém que não tinha assistido o filme, simplesmente ouvido falar dele, e por isso o único conteúdo era a sinopse. Eu não seria capaz de lembrar dela palavra por palavra, e não quero googlar isso no meio do texto, então numa paráfrase o texto dizia assim: "Casal dá uma festa, e dois convidados completamente desconhecidos decidem ficar na casa deles depois de a comemoração acabar." Eu não fui procurar o filme imediatamente depois de ler aquilo, mas a ideia de ficar sozinho na minha casa com dois estranhos que entraram de penetra ficou na minha mente por dois, três dias até eu finalmente decidir assistir. Filmes de terror, assim como os de comédia, se constroem ou destroem logo na premissa; quanto mais simples, melhor. Essa era uma premissa simples, e eu não me lembrava de já ter visto algo assim antes.

Plenamente ciente do ano em que o filme foi feito, eu esperei que a ideia inicial da história fosse se degringolar muito rapidamente. Um dos males do cinema moderno é não se contentar com pouco, e por isso minha maior surpresa foi perceber que Who Invited Them não teria tempo para degringolar qualquer coisa que fosse. Acabei assistindo uma hora e vinte minutos de pura e simples exploração da premissa original, cada parcela do roteiro dando a si mesma tempo para respirar mesmo sem prejudicar o ritmo rápido dos acontecimentos. Terror, assim como comédia, não foi feito para passar de uma hora e quarenta; com vinte minutos de folga, o filme em questão contou a história que queria contar de forma enxuta e ágil e me deixou satisfeito.

É difícil, como o leitor deve perceber, falar da história de um filme de duração ideal sem estragar uma coisa ou outra. O que posso falar sobre o roteiro — enquadrando aqui argumento, diálogos, estrutura e ritmo — é que gostei muito dele. Abusa um pouco da suspensão de descrença perto do final, telegrafa uma das grandes revelações do filme logo no início e deixa a sensação de que um arco narrativo desenvolvido desde o início do filme acaba sem a resolução desejada, mas em momento nenhum trai a si mesmo e esse é um elogio que não consigo fazer com frequência. O maior mérito dramatúrgico do filme é a exploração da premissa, que é solidificada por uma base construída sem pressa e erigida por toda uma sucessão de situações cada vez mais complicadas e tensas que servem de rima para a principal questão do filme: o quão feliz um casal feliz realmente é? Dizer que Who Invited Them é um filme sobre relacionamentos não seria de todo verdade, mas também não seria mentira. Conseguir trabalhar esses temas sem sair da premissa inicial é outro grande mérito do roteiro.

O filme não tenta esconder o baixo valor de produção; muito pelo contrário, ele o usa como um distintivo de honra. Toda a ação se passa numa rua, entre duas casas, e mesmo as poucas cenas que se passam fora desse âmbito eu apostaria que foram gravadas através de ângulos diferentes da mesma locação. Uma competente direção de fotografia, em conjunto a um bom uso dos cômodos de cada casa, sobrepõem as limitações orçamentárias e desafiam o espectador a quebrar sua própria imersão pensando em detalhes tão triviais. A direção extrai o melhor do elenco, especialmente dos personagens principais, e o realismo das interpretações é o ingrediente extra para colocar Who Invited Them em competição direta com os mais caros filmes do gênero lançados nesse ano e vencer.

Tudo isso soa muito bom, eu sei, mas não soa estelar. Naturalmente, não falamos do elenco ainda.

Eu nunca nem tinha ouvido falar de Timothy Granaderos, e ao terminar o filme eu me arrependi disso. Ele está brilhante, e é a definição de roubo de cena. Tudo, desde a química fraternal com Perry Mattfeld e o aspecto diabolicamente manipulador ao interagir com o casal de protagonistas até os trejeitos e expressões faciais entregues com a deliberação de alguém muito confortável em seu papel, foi um verdadeiro show. Digo isso sem a menor intenção de diminuir o trabalho dos demais membros do elenco, todos igualmente eficazes em trazer seus personagens à vida com diferentes níveis de carisma, mas tanto o trabalho feito com o personagem no roteiro quanto sua entrega em frente às câmeras foram sem dúvida o motivo pelo qual integrei Who Invited Them em minha lista de melhores do ano.

E que ano, leitor! 2022 já conta com sete filmes bons, e isso tudo antes do próximo Avatar sair!

Brincadeiras à parte, eu diria que o filme sobre o qual estou resenhando foi o primeiro que gostei por ser atual. Vivemos em tempos inquietos, e muitas das obras que tentam emular tamanha inquietude acabam sofrendo por não saberem como fazê-lo. Who Invited Them mostra personagens modernos com problemas modernos, inseguranças modernas e apesar de tratar de temas universais os apresenta de forma moderna. O roteiro, indo contra o que se normalmente faz em filmes de terror atuais, não ignora a presença da tecnologia e sim trabalha ao redor dela para amplificar a tensão de certos momentos. Em resumo, tudo que sempre pensei serem deméritos em outros filmes acabou se mostrando um atestado de qualidade nele e isso tanto reforça o quão baixo o nível está nessa década quanto eleva Who Invited Them em relação ao resto. Fica aqui o desejo de ver mais disso nos anos seguintes.

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